29.5.12

Mínimas

Por detrás da mais hirsuta barba há um homem de bigode.

22.5.12

Bandeira de Papel



Bandeira, Cravo & Ferradura, DN, 20.8.2004

21.5.12

Bandeira de Papel

Bandeira, Cravo & Ferradura, DN, 20.5.2012

19.5.12

Prima Anilda

(Foto José Bandeira)

A prima Anilda perdeu o marido há cerca de dois anos. Ele explorava, com as próprias mãos, uma pequena propriedade rural no Oeste. Ela geria – ainda gere – uma taberna e mercearia dois-em-um na aldeia perto da Nazaré onde também nós temos uma casa. Alguns meses atrás, a prima Anilda ficou obcecada pela ideia de prestar uma homenagem ao Nhã, o falecido marido. Contratou um par de pedreiros locais e começou a converter a adega da sua casa num pequeno museu rural. Todo o tipo de utensílios usados nos campos e tabernas do Oeste desde há pelo menos mais de um século foram cuidadosamente limpos e distribuídos pelos renovados chão e paredes da adega. Em cada objecto, ela colou um papelinho detalhando, numa caligrafia que podia ser árabe de tão bonita, o seu nome e função. A prima Anilda olha em redor com uma expressão de menina. Então pergunta-nos, a voz tremendo: “Ele teria gostado, não acham?”

17.5.12

Se soubesse que dormir era assim tão bom, teria começado mais cedo

J. Rentes de Carvalho (foto José Bandeira)

Não obstante a ligeira maçada de uma dorzita de cabeça pela manhã, tenho dormido muito bem nos últimos quatro ou cinco dias, obrigado por perguntar. O milagre deve-se a um par de comprimidos-maravilha que o meu mais recente médico me prescreveu. Eu tinha a pelos vistos peculiar ideia de que dormir duas ou três horas por noite ao longo de mais de quatro meses não podia estar a fazer-me bem. Pior: suspeitava de que isso pudesse ser até responsável pela minha fadiga extrema, irritabilidade, ansiedade e falta de iniciativa, para além de um desejo irreprimível de comer papagaios crus. Era para mim um mistério, o facto de os 127,3 médicos que eu consultara se interessarem por esses sintomas – e pela forma de lidar com eles – mas nenhum me houvesse questionado sobre os meus hábitos de sono.

E agora, algo de completamente diferente:

O meu xará J. Rentes de Carvalho, escritor português e antigo aventureiro, marinheiro, expatriado, etc., estabeleceu-se há já décadas na Holanda, onde, julgo, dava aulas de Literatura numa universidade de Amsterdam (é desta forma, e com argumentação sólida, que defende que se escreva o nome da cidade). Ele esteve em Lisboa uma ou duas semanas atrás para falar na Feira do Livro sobre a sua última obra. Havíamos trocado alguns e-mails há uns dois ou três anos, e Rentes de Carvalho tivera a cortesia de me enviar livros – não os da sua lavra, que esses já os li quase todos, mas volumes antigos que lhe acontecera encontrar nas suas estantes e pensar, com razão, que me interessariam. Com mais cerca de 30 anos do que eu e uma tremenda experiência de vida, o autor de Com os Holandeses é nada menos do que um sábio. Orgulho-me muito da sua amizade e faço questão de dizer a toda a gente que o conheço, o que, enfim, não sendo mentira também não é de uma honestidade por aí além. Chame a polícia, se quiser: a única autoridade que me mete medo é a EMEL e esses saem às oito.

Encontrámo-nos, quase por acaso, na Feira do Livro. Os altifalantes anunciaram que Rentes de Carvalho estaria a conceder autógrafos no stand da sua editora e nós apressámo-nos para o local (ia escrever “corremos”, mas isso não ilustraria correctamente o patético esforço que faço para colocar, em rápida sucessão, um pé à frente do outro). Lamentavelmente, não é fácil manter uma conversa quando há gente esperando por um autógrafo a bufar cada vez mais perto da nossa nuca. Foi um encontro emotivo mas breve. Ele perguntou-me como é que eu estava. A minha mulher respondeu por mim. Ela disse que eu andava fatigado, irritável, ansioso e com falta de iniciativa. Felizmente omitiu o meu hábito de perseguir, com intenções funestas, os apetitosos papagaios dos nossos vizinhos. Rentes de Carvalho levantou os olhos para mim durante um par de segundos. Depois perguntou à minha mulher: “Ele dorme?”

16.5.12

Dias atrás, a minha mãe acordou surda

Dias atrás, a minha mãe acordou surda. Caíra da cama durante o sono, ainda hoje não sabe explicar como. Desconfio que foi empurrada; mas não tecerei mais considerações sobre o assunto, mãe é para ser respeitada e tal. A senhora, que era já completamente mouca do ouvido direito, passou a ouvir com o esquerdo apenas as consoantes mudas (mais tarde viríamos a saber que, com o tombo, uma quantidade anormal de cera fora comprimida no interior do ouvido). Telefonou-nos em pânico. Conversa de surdos, sabe como é, cheia de gritos e de "hã?".

Corremos a buscar a minha mãe para a levar às urgências do hospital. Uma vez que em situações deste jaez o meu pequeno neurónio da inteligência se liga automaticamente, ocorreu-me utilizar o iPhone para comunicar com a doce senhora. Foi um sucesso. Todos na sala de espera poisavam em nós um olhar de respeito e admiração. Munida dos seus óculos de leitura – para ver as misérias que por aí andam ela já não precisa de óculos desde que foi operada aos olhos, há duas ou três semanas –, escrutinou o que eu digitara no ecrã. Então pegou no bloquinho e na caneta que a minha mulher havia tirado da mala para poder, também ela, comunicar com a sogra (eu não lhe empresto o iPhone). E a senhora começou paulatinamente a escrever a resposta.

Quando deu pelo que estava a fazer, a minha mãe riu-se muito; e até as lâmpadas do tecto sorriram, e os médicos receitaram cannabis, e aqueles que estavam surdos levantaram-se e caminharam (ok, ok, esta parte eu inventei).

***

Algumas frases que escrevi no iPhone:

VOU PASSAR A ESCREVER AQUI PARA QUE TU LEIAS. PODE ATÉ SER QUE ISSO SEJA SÓ DA CONSTIPAÇÃO. OK? MAS TEMOS DE DESPISTAR, NÃO QUERO UMA MÃE SURDA

TENHO DE IR BUSCAR O CARRO. ESPERA AQUI (Nota: a minha mãe estava numa cadeira de rodas sem travões)

QUERES COMER OU BEBER ALGUMA COISA?

QUERO EU

AINDA ESTÁS A PÔR AS GOTAS NO OLHO? CHIÇA

ESTÁS A ESFORÇAR A VISTA E QUALQUER DIA NÃO VÊS NADA OUTRA VEZ. USA OS ÓCULOS PARA LER! SABES QUANTO É QUE ISSO CUSTOU?

TENS O OUVIDO ESQUERDO TODO ENTUPIDO: NEM SEQUER SE CONSEGUE VER O TÍMPANO. DEITA AQUELE SPRAY FORA

VOU ARRANJAR-TE UM DAQUELES FIOS PARA TRAZER OS ÓCULOS AO PESCOÇO

NÃO, EM COURO

VAIDOSA

A PRIMEIRA FOI A TRIAGEM DA URGÊNCIA; A SEGUNDA FOI DE CLÍNICA GERAL.  AGORA É QUE VAIS SER VISTA POR UM OTORRINO. ACHO EU. DOS OUVIDOS É OTORRINO, NÃO É?

ELA ESTÁ SÓ A PASSAR A RECEITA. O OTORRINO VAI VER-TE DAQUI A POUCO

OUVE-SE O QUE ESTÁS A DIZER EM VILA NOVA DE GAIA

DÁ CÁ OS ÓCULOS QUE EU GUARDO-OS NO BOLSO DA CAMISA

É AGORA É AGORA

26.4.12

Aviso

(Foto José Bandeira)
Quando está sob dor intensa – física, psicológica ou ambas – o mundo pode deixar de parecer um lugar maravilhoso. Isto NÃO É um sinal de mau funcionamento.

17.4.12

O problema

com as fotos de miradouro é serem tão... bom... fotos de miradouro, não é? Para se conseguir uma panorâmica verdadeiramente original de uma cidade há que encontrar um ponto de observação virgem, e todos sabemos o quanto eles são raros nos dias que correm. Arriscar a sua vida (ou pior ainda, a sua câmara) subindo a árvores altas ou atravessando rios tumultuosos não é verdadeiramente uma opção após os 45 (querendo com isto dizer que os seus entes queridos iriam sentir a sua falta durante pelo menos um dia ou dois, e se não tem entes queridos aos 45 é porque não está vivo, de qualquer forma). A melhor opção é, assim, colocar algo de verdadeiramente interessante em primeiro plano, como um guarda-chuva colorido ou um elefante. Infelizmente, as lojas estavam fechadas e os zoos indisponíveis quando tirei esta foto de Cuenca, Espanha.

29.3.12

Pára com isso, Millôr, vai

A Cioran, o homem que elevou o pessimismo à categoria de arte, perguntaram certa vez por que razão, se a vida lhe era assim tão insuportável, não acabava com ela de uma vez por todas; ele respondeu, com o habitual pessimismo, que “do outro lado” era capaz de ser ainda pior.

Se pode ser ainda pior, sei lá eu se não é pelo menos um pouco melhor. Daí não ser dado a homenagens póstumas. O falecido passaria a eternidade a gozar-me, repetindo o meu discurso enternecido para depois rir muito por nunca me ter devolvido aquele dinheirinho que me devia e tal. Desta forma poderei olhá-lo nos olhos – ou em lá o que é que sobra nessas circunstâncias, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino não são completamente coincidentes no assunto – e dizer “Eu sabia que você estava a brincar” e rir-nos-emos muito e faremos libações, porque nesse outro mundo os comuns dar-se-iam com os génios e vice-versa.

A excepção é, naturalmente, Millôr: imagino que ele odiaria sentir-se homenageado por mim. E depois, tenho em incomum com ele (em Millôr nada havia de comum) o facto de termos trabalhado para o mesmo vespertino português, o Diário Popular, com a distância temporal de mais de uma vintena de anos. Claro, ao passo que ele fazia aumentar as vendas, eu estive presente no enterro do diário – mas qualquer responsabilidade que eu pudesse ter nisso já caducou, vire para lá esse seu olhar de vampiro.

Para terminar (antes que me torne mesmo, mesmo sentimental): o meu exemplar de “Millôr Definitivo – A Bíblia do Caos” foi comprado na Poesia Incompleta, que como todos sabem acaba de fechar.

Como Millôr: sem dívidas.

25.3.12

Livin' la vida loca

Chega uma altura na vida em que, à questão "Se pudesse levar apenas uma coisa para uma ilha deserta, o que escolheria?", a gente responde "Os meus comprimidos".

24.3.12

Piada de um insone

Hoje não durmo uma hora a mais ou uma hora a menos?

19.3.12

Bandeira de papel

Cravo & Ferradura, DN, 19.3.2012

14.10.11

Sobre o discurso do PM

A luz ao fundo do túnel era uma mota.

8.10.11

Trinta páginas

Como escrever para que ninguém nos leia? Escrevendo pelo menos trinta páginas. Mais do que trinta e vacilaremos, sofreremos a tentação de ser lidos. Para que ninguém nos leia há que escrever trinta páginas e ser depois – sobretudo – capaz de destruí-las.

7.10.11

No feriado

Levantámo-nos à hora da insónia e fomos dar os bons dias a Almeida. No regresso deu-me o sono. Passei razoavelmente essa noite—levantei-me às seis. Hoje deitei-me cedo e dormi até quando quis. Decerto não foi do comprimido novo que o meu analista me receitou; antes terá culpas o jet-lag. Que Almeida, mais do que a quatrocentos quilómetros, fica numa dimensão que ninguém se lembrou ainda de inventar.

4.10.11

É movendo-nos

que chegamos onde queremos ir. Mas—e se não queremos ir a lugar nenhum? Bom, nesse caso teremos que dar uma volta maior.

3.10.11

Somos um povo de poetas

porque não temos dinheiro para tintas.

30.9.11

Mínimas

Antes trocar cromos que palavras de circunstância.

12.9.11

Receituário

Tomo estes comprimidos porque são baratos, sabe.

3.9.11

Toponímia nortenha

Acabo de passar Rio Cabrão.

31.8.11

Autocrítica (crítica no automóvel)

"Sabes, pai, embora não pareça, tenho gostado imenso destes dias a passear contigo. É que nós, adolescentes, temos de fingir que achamos tudo uma seca."

5.8.11

Um ecg

é um conto curto escrito pelo coração.

23.5.11

Recapitulação VIII

Um homem recapitulava toda a sua vida enquanto a maca que ocupava deslizava pelos corredores; e pensou que não a havia vivido na sua plenitude. O rio em que não nadara em criança com medo das cobras de água. O primeiro beijo que não dera com nojo da saliva. As namoradas com quem não namorara porque não queria ter que tomar banho todos os dias. A mulher que não pedira em casamento porque não estava seguro de que ela tomasse banho todos os dias.

Então o momento chegou. O bem-estar, o túnel, a luz muito branca, as vozes chamando. A maca deteve-se. Mãos voaram como pássaros sobre o seu corpo inerte. Mas ele, como sempre, hesitou; e acabou tendo uma experiência de quase-morte.

18.5.11

Recapitulação VII

Numa remota região da China, tão remota que ali os rios desaguam uns nos outros por desconhecerem a existência do mar, habita um povo do qual jamais houve notícia. O que mais o distingue dos outros povos é a sua estranha língua: cada indivíduo pode pronunciar cada uma das palavras do léxico uma única vez. Talvez por isso, existem – de acordo com a última contagem – 271 palavras diferentes para significar «facécia», 6525 para «pórtico», 895477 para «linda» e 9003226635910 para «não».

Os habitantes desta região remota da China possuem nomes ainda mais compridos do que os dos reis de Portugal.

Reestruturação orgânica dos serviços

O departamento das tiras e cartoons passou para aqui, num edifício mesmo ao lado (muito obrigado a todos os que deram notícia). O das fotos, esse, o daguerreotípico leitor já sabe onde fica. Aqui no BV estarão sobretudo os textos, hahaha, a sério, um destes dias eu volto a escrever.

26.4.11

Recapitulação VI

A intervenção era de rotina. Mas a mulher do cirurgião fugira nessa mesma manhã com o proctologista, e ele, que era apenas humano, operou para esquecer.

O paciente acordou na madrugada seguinte com o ventre rígido, dores agudas e vontade de dançar slow. Tiraram radiografias, entraram em pânico e ligaram para o telemóvel do cirurgião. Ele não demorou dez minutos. Tinha aspecto de quem passara a noite a vender as mágoas aos pombos no relvado do hospital. Olhou a radiografia e a queixada por barbear tombou-lhe no peito. Esquecera um velho single de 45 rotações no interior do paciente. «A nossa música», gemeu chorando, e encostou o ouvido à barriguinha dele.

24.4.11

Recapitulação V

Um velho muito velho e estragado encontrou o rei de França junto a um Mercúrio em bronze e entabulou conversa com ele. Sentaram-se nas conchas de uma fontezinha rococó com peixes encarnados e tritões de pedra e contaram as suas vidas um ao outro. O velho falou das imensas provações por que havia passado na sua muito longa existência; o rei, do seu extraordinário poderio. Quando já não tinham mais nada para dizer um ao outro, o velho perguntou ao monarca se trocaria de vida com ele. O rei de França respondeu: «O diabo seja cego, surdo e mudo!» E o pobre diabo ficou cego, surdo e mudo.

22.4.11

Recapitulação IV

Disputava o príncipe com o rei a única casa de banho do palácio:

“Precisamos de fazer a barba”, dizia o príncipe.
“E nós queremos tomar um banho de imersão”, retorquia o rei.
“Mas nós vamos passar a noute fora com uma cortesã gaiteira”, insistia o príncipe.
“Pois ide como estais, e tende o cuidado de tornar perfumado ao paço”, arreliava-se o rei.

Desta forma encostado aos azulejos, o príncipe permitiu que o rei entrasse na vetusta banheira; após o que lhe afogou a majestade sem grande dificuldade.

Ultrapassada alguma comoção inicial, o povo aclamou o matante como seu governante; e, em sinal de agradecimento à Divina Providência, o novo monarca não voltou a tomar banho de imersão em toda a sua longa vida – ainda hoje luzem no palácio o duche e polibã doirados que em lugar da real banheira ele mandou fossem instalados.

20.4.11

Recapitulação III

“Pode tirar-me tudo menos o Direito à Indignação”, indignava-se um Homem Indignado. “Não posso tirar-lho, mas posso taxá-lo”, respondeu o Governante Insensível. E quanto mais o Homem Indignado com isto se indignava, mais o Governante Insensível, com a ajuda de um Indignómetro, via o lado da receita subir.

18.4.11

Recapitulação II

O inspector dobrou a gabardina, poisou-a cuidadosamente sobre as costas da cadeira, encheu o peito de ar e disse, ao mesmo tempo que expirava:
«Foi o Marcelo.»
«O Marcelo, inspector…?», escandalizou-se o guarda Caetano.
«O Marcelo, Caetano.»
Tomás entrou de rompante no gabinete, corado ainda do opíparo almoço.
«Viva, inspector! Viva, Caetano!»
«O Américo, Tomás?», perguntou o inspector.
«Pensei que estava consigo.»
«Comigo? Não o vejo desde ontem. Preciso que você vá com ele e com o Caetano.»
«Fazer o quê, inspector?»
«Buscar o Marcelo», suspirou o guarda. Tomás voltou a sua incredulidade para o cívico:
«O Marcelo, Caetano?»

17.4.11

Quatro seguidas

Ontem suportei tormentos de prazer na Gulbenkian. Se o barítono Thomas Hampson e as canções orquestrais de Mahler me deixaram em êxtase e com vontade de passar o resto dos meus dias comendo salsichas e manuseando, com os dedos pingando gordura, gramáticas da língua alemã, a tensão da 1ª do Gustav, a Titã, espertou o lado rancoroso da minha hérnia discal. Durante o resto da noite não pude virar a cabeça para o lado esquerdo. Já no dia anterior havia assistido a um bom concerto, o inaugural dos Dias da Música, no CCB. Pela orquestra de, veja bem, Brno. Como se existisse na Terra algum sítio chamado “Brno”, hahaha. Tocaram Paraísos Artificiais, de Freitas Branco (alucinogénios opcionais), Rhapsody in Blue, de Gershwin – deixe-me dar um grande uau ao pianista, Jorge Moyano – e, para rematar, a 9ª de Dvořák, cadência de índios caçando búfalos em vastas planícies. Hoje vem o Adágio da Décima de Mahler e a sua Canção da Terra. Mais sofrimento, que os miúdos da Jugendorchester sabem tocar e fazem-no com cruel arrebatamento. Mas amanhã, ah, amanhã é Bach. Para expulsar esses demónios que teimam em ficar dentro nós quando nos expomos a Mahler tempo de mais.

16.4.11

Recapitulação I

Eu costumava tomar café com Sandokan nos intervalos entre as suas façanhas, aquelas na selva, no Índico ou num qualquer desses lugares exóticos por onde ele andava sempre, enfrentando sozinho dúzias de temíveis ursos pardos, centenas de tigres de Bengala, milhares de piratas cruéis, sabe como era. Ele ficava sempre pelo meu bairro alguns dias, recuperando das dores crónicas no tornozelo que partira em criança ao brincar a saltar ao eixo com Pamurundirajira, o elefante-filósofo indiano bebé.

Mas eu mentiria se dissesse que os cafés com Sandokan eram interessantes. Ele achava que as suas proezas eram trabalho, e “em férias”, dizia, “não se fala de trabalho”: eu que esperasse pelo livro. Ficávamos os dois calados, olhando para as chávenas e brincando com as colheres, eu morrendo de vontade de lhe perguntar quantos canibais ou bestas selvagens chacinara da última vez, ele pensando em como extorquir-me novamente dinheiro para pagar a conta do hotel Lutécia. Em Alvalade, eu era o seu único amigo.

Um dia foi apanhado por mil e quinhentos fiscais do metro sem um título de transporte válido, e morreu.

Nix

15.4.11

Bandeira de Papel

Bandeira de Canto, JN, 15.4.2011

14.4.11

Bandeira de Papel

Cravo & Ferradura, DN, 14.4.2011

12.4.11

Bandeira de Papel

Cravo & Ferradura, DN, 12.4.2011

15.3.11

Hiperbolezinha

Acho que não dá para se ser mais bacoquinho do que quando se diz de Aveiro que é “a Veneza de Portugal”. Mas essa minha convicção vacilou um tanto quando li uma brochura recolhida ao balcão de um hotel alentejano. Ali se avança, sem medos, que o Pulo do Lobo é “o pequeno Grand Canyon português”.

6.3.11

O Satanás de Telheiras

Mastigando um bife com molho de mostarda no Oh! Lacerda, o meu filho diz que agora é “satânico”. Eu e a D. rindo muito por entre garfadas de arroz de garoupa. E ele admirando-se, “Digo-vos que vou para o Monte dos Misantrópicos e vocês respondem ‘leva um casaquinho!?’”. Com dificuldade contemos as lágrimas. Eu, didáctico: “Sabes onde aparece o Satanás pela primeira vez?”, e ele, “No Dragonball…?”. Dez minutos de cachinada. Depois conto-lhe a história de Job, o homem que tinha tudo menos sentido de humor.

Autores em dificuldades

“[O Livro Verde] Debruça-se igualmente sobre a solução do problema das minorias e dos pretos, de modo a estabelecer os princípios firmes da vida social para toda a Humanidade.”
(Do texto da contracapa)

5.3.11

Pássaros adejando

Raras vezes me apetece escrever sobre algum livro que tenha lido. Espere, espere, não são tão raras assim. Agora que penso nisso, acho que são até muitas, as vezes em que me apetece escrever sobre livros que li, mas dá-me uma preguiça, hmmm. Resolução para este ano: escrever sobre livros que li. Como se eu cumprisse as minhas resoluções, hahaha.

Entretanto: venho lendo a tradução de António Miguel de Campos do Tao Te King, de Lao Tse – uso a grafia daquele – e estou fascinado, não tanto pelo Tao Te King, que já conhecia de outras (bem piores) traduções, mas pela minúcia e excelência do trabalho de Campos. Antes de ler esta tradução, eu pensava que entendia o Tao; não entendia nada, claro. Agora continuo a não entender, mas não entendo muito melhor. Quero muito ser amigo de António Miguel de Campos. Para exalar um perfume verdadeiramente oriental, um livro escrito na China há mais de dois milénios e meio (a tradição di-lo e eu não a desdirei) teria forçosamente que ser traduzido por um investigador na área da engenharia electrotécnica. E se o leitor assim mais moderno acha que obra lavrada há já mais de 2500 longos anos nada pode ter para lhe ensinar (afinal, desde então o homem foi à Lua, clonou a Dolly e inventou o temporizador de luz de WC público), lembre-se de que foi mais ou menos por essa altura, tire-lhe um século, vá, que o Sócrates viveu, o Platão escreveu e o Demócrito arengou sobre como o universo é composto de átomos e tal.

Pare de encolher os ombros: esta não é apenas mais uma versão bilingue do Tao Te King. Ela inclui explicações sobre os caracteres chineses do poema original (a propósito, Campos recusa-se a acentuar "caracter", kudos para ele, serei o primeiro a assinar petição a favor) e observações muito pertinentes sobre a filosofia que subjaz ao Tao. A edição é da Relógio D'Água. Corra a comprar para que depois possamos ter longas conversas caladas, olhando belos pássaros adejando por sobre canas de bambu.

24.2.11

Eiafeméride

Há precisamente trezentos anos, o alemão Händel estreava a ópera italiana Rinaldo num palco inglês. O clip em baixo é do filme Farinelli, de Gérard Corbiau (se tem mesmo de saber, belga). Quem cantou esse Lascia ch’io pianga na estreia de 24 de Fevereiro, contudo, não foi o idolatrado castrato italiano, mas uma tal Isabella Girardeau; um estrondo, apesar das críticas mete-nojinho nos jornais do dia seguinte.

Almirena, filha do Godofredo – o líder baixinho da Primeira Cruzada, o leitor lembra-se – canta o seu desgosto por as coisas não estarem a correr muito bem com o namorado, o valente cruzado Rinaldo, sobre cujas largas espaldas se joga o sucesso (na verdade, foi um massacre) do cerco e subsequente assalto a Jerusalém. Não me peça para explicar a roupinha. O pavão, esse é autóctone da Terra Santa. Ou então eles levavam para lá – sabe, para dar um pouco de cor ao deserto.

Mas o que importa mesmo é o parabéns a ele, ao Händel, quero dizer, e ao Rinaldo também.

23.2.11

Prova clínica

Tem os melhores rissóis de Alvalade e os clientes mais obtusos: o Júlio de Matos é mesmo ali à mão. Hoje, encostado ao balcão para não cair, um homem arenga em voz muito alta. Quer mais um uísque, mas o patrão nega-se. Que melhor não, que assim vai à consulta cheio de álcool no sangue. “É precisamente por ir à consulta que tenho de beber”, retorque o sujeito, “para provar que sou bêbado”.

18.2.11

Pensamentos do Exílio

Não sinto grandes melhoras com as lentes progressivas. O mundo continua igual.
Não ando desaparecido, apenas tenho dias em que não acredito em mim.
Sou tão céptico que não acredito em S. Tomé.
Deus fez o mundo em apenas seis dias. Não é estranho? Porquê tanta pressa?
O ateu prudente usa chapéu.
Sartre, vá lá dizer numa perfumaria que a existência precede a essência.
Espiral é uma recta vivendo em clima muito húmido.
Rica galinha, põe ovos de Fabergé.
Todo o suburbano é um excêntrico.
Sempre quis ser autodidacta, mas nunca havia alunos suficientes para formar uma turma.
Mantenha a cabeça fria e ela durará mais tempo.
Ninguém com dois dedos de testa usa um boné com pala.
Não perder a cabeça é importante, em particular se já não se é uma pessoa alta.

9.2.11

Mínimas

O verdadeiro céptico não é o que duvida de tudo; é o que procura a solução depois de a ter encontrado.

8.2.11

Impressão: Sol Nascente

“O John Locke acha que o povo detém sempre o direito de derrubar um governo injusto e repor o seu estado de liberdade original”, disse Camille. Ela vinha acompanhando com paixão, pela Internet, os acontecimentos no Oriente Médio. “Ele diz que numa revolução justa o verdadeiro fora-da-lei é o governo, não o povo”.

Claude Monet não se deixou impressionar. Como Hobbes, tinha pouca fé nesse estado de liberdade original. “E então? Nada de novo debaixo do Sol. Vou pintar. Há um salgueiro que…”. “Mas o que há de novo aqui é esse ‘o povo’, Claude!”, entusiasmou-se Camille. “Até o John publicar o tratado dele, houve muito quem defendesse o direito à revolta – desde que não partisse da rua”.

“Mas todos os governos, de uma forma ou de outra, são injustos, ma belle. Se isso fosse o suficiente para justificar a revolução, o que impediria as massas de se rebelarem por dá-cá-aquela-palha? Seria impossível tomar um absinto no café ou uma carruagem a horas”, brincou Claude, tentando aliviar a tensão. Camille tomou-lhe as mãos papudas. “O John diz que o povo não é assim tão revolucionário. Que só mesmo após uma longa sucessão de abusos um governo corre o risco de ser deposto pela rua. Olhe o que está a acontecer no Egipto, meu querido. Há trinta anos que esse Mubarak vem esticando a corda”. Monet cofiou a longa barba. “É certo que os egípcios tiveram uma paciência de múmia”, admitiu. “Mas suponha que instalam ali um regime pior ainda do que o actual, uma teocracia, sei lá. Que dirá o seu amigo John então?”. “Se isso acontecer, o povo terá mais uma vez o direito de se revoltar”, respondeu Camille, olhando um ponto indefinido para lá da janela. “Nem que seja apenas daqui por outros trinta anos”.

Claude fez que sim com a cabeça. Achou-se tonto por imaginar que a mulher pudesse ter um caso com Locke: demasiada diferença de idades. Depois veio-lhe à mente o que Cioran escrevera sobre como não existem mudanças de regime, apenas de polícia, mas não disse nada. Camille deu-lhe um beijo apressado e voltou para o portátil. Então ele calçou as galochas, colocou o chapéu e saiu para pintar nenúfares.

7.2.11

Ciclo ontogenético

D.: Vais ao ciclo da Sofia Gubaidolina?
C.: Não! Ela está viva, pelo amor de Deus!

Coisas do Mundo

Ainda preciso de alguma prática com o iPhone: fui avisado às 18:45 de que tenho um almoço hoje, às 20:45, com um amigo de juventude.

Se quer saber, correu bem (se não quer saber, correu bem à mesma). Ele é húngaro e encontrámo-nos num restaurante gerido por nepaleses que serve comida italiana. O vinho era português, o uísque, da Irlanda, e na parede havia uma dessas cascatas luminosas chinesas.

Como é natural, falámos de coisas do mundo.

1.2.11

As Nuvens

Vai-se ao campo e não se tem electricidade. Aprende-se que é porque “caiu um relâmpago muito grande” mesmo no centro da aldeia. O leitor não quereria estar por perto de um acontecimento como este. Para lhe dar uma ideia de quão perturbador pode ser, numa área de cinco metros em redor teria sido muito difícil usar o seu telemóvel.

Por uma vez, é bom não ter de culpar o governo. Mas o homem que ficou com a casa destruída não concorda. Ele acreditara que um corisco saberia distinguir um pára-raios das suas góticas antenas de TV. Quer muito poder imputar responsabilidades a alguém (isso revela, é claro, um desejo reprimido de dormir com a mãe e matar o pai). Mas quando é assim, diz o senhor da luz que vem dar apoio psicológico e substituir o disjuntor, quando é assim, quer dizer, a Natureza ou Deus ou seja lá quem for que lança os raios, é muito difícil: eles alegam causas naturais e pronto.

Agora já há electricidade no campo. Dou graças. Uma hora sem energia numa noite glacial, aqui, é equivalente a cinco horas de uma actividade divertida, como a lipoaspiração ou um telefonema de marketing. E para o raio também não deve ser fácil. Já pensou? Ele tem tão pouco tempo para si.

25.1.11

Não Há Crise

Keynes está de volta, avise a mulher dele
Por José Bandeira, especialista

 Instruções para a Economia portuguesa (válidas desde 1995 até KLR650).

Voz: Bem vindo à Linha Economia. Para saber se a TAEG é uma companhia aérea low cost, pressione “1”. Se pretende uma entrevista para emprego, pressione “2” noutro telefone qualquer. Para falar com o presidente do Banco Central Europeu, pressione “3”. Para conhecer o valor do défice, digite “1129745084534781,21”. Para insultar um representante da Moody’s, pressione “*****”. Para falar com um técnico, pressione a sua tia. [Eu pressionando a minha tia]
Técnico: Bom dia. Eu dizia-lhe como me chamo, mas nem isso sei. Em que posso ajudá-lo?
Eu: Eh… bom dia. Aqui Bandeira. Parece-me que tenho a Economia avariada.
Técnico: Estou a ver. Posso saber de onde está a ligar?
Eu: [indo até à janela e olhando para os Pais Natal pendurados nas varandas desde o ano passado] Portugal, tenho quase a certeza.
Técnico: Por favor indique o 13º e o 1298º dígitos do seu código de acesso.
Eu: O que é isso?
Técnico: Correcto. Senhor Bandeira, verificou se a Economia está ligada?
Eu: Julgo que sim. Pelo menos tem um monte de luzes vermelhas acesas, ou talvez se trate de um pequeno incêndio.
Técnico: Muito bem. Experimentou clicar em “A Minha Economia” no Ambiente de Trabalho?
Eu: Sim. Aparece aquele jogo das minas.
Técnico: Hmm… ok, parece-me bem. Clique por favor no ícone “Painel de Especialistas”.
Eu: [clicando no ícone] Não acontece nada.
Técnico: Parece estar a funcionar correctamente. Dê-me a sua morada que nós far-lhe-emos chegar um gráfico com toda a informação de que necessita. [nota: consultar gráfico nesta página]
Eu: Mas preciso da minha morada, não tenho outra onde viver.
Técnico: [com um tom de algum desdém] Compreendo. Talvez consigamos resolver a coisa apenas com o seu endereço. [Eu fornecendo o meu endereço]
Técnico: Com o gráfico segue uma foto da Scarlett Johanson nua. Fazemos isso para que os utentes não prestem atenção ao gráfico. Se preferir, temos uma versão com o Brad Pitt. Posso ajudá-lo em mais alguma coisa?
Eu: Bem… quero dizer… então a Economia está em condições? Posso ficar descansado?
Técnico: Sim, sim. Não há crise. [Clic]


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(Texto publicado no nº 4 da revista Companhias.)

24.1.11

Bandeira de Papel

Cravo & Ferradura, DN, Janeiro 2011

21.1.11

Une petite histoire bourgeoise

A FNAC, ou Fédération Nationale d’Achats des Cadres, foi fundada em 1954 por André Essel e e Max Théret, dois membros do movimento Jeunes Socialistes. O seu intuito expresso era o de permitir aos operários a aquisição de bens de retalho a preços acessíveis (soube isso por obscuros documentos que consultei, dias e noites a fio e durante vinte anos, na Bibliothèque Nationale – ou talvez por uma rapidinha na Wikipédia, não me recordo bem). Todos os produtos eram testados num centro independente e aqueles que não atingissem os padrões mínimos iam para uma “lista negra”. Os funcionários eram treinados de forma a conhecer a fundo a sua área e poder fornecer aos membros da classe trabalhadora todas as informações de que estes necessitassem.

Hélas, todos sabemos o quanto os operários mudaram desde então.

Aníbal e os elefantes

Como são bonitas, as famílias grandes. Olhe a da mulher de Ben Ali, o ex-governante de Tunísia. Cada um daqueles irmãos, tios, primos, sobrinhos, cunhados, enteados, genros e noras vivia chupando alegremente o seu pedacinho do país. Agora perseguem-nos: 33 acabam de ser presos. Caso para intervenção do braço cartaginês da Associação de Famílias Numerosas.

20.1.11

Convitação

(Clique para aumentar)

19.1.11

Bandeira de Papel

Bandeira de Canto, JN, Janeiro 2011


17.1.11

14.1.11

Manifestamente

Jamais coagirei alguém a fazer seja o que for. Seria ir contra um dos meus princípios mais queridos: o que diz que todo o ser humano tem o direito de decidir o que fazer da sua própria vida, ainda que isso implique tornar-se, sei lá, francês, membro de um clube de vídeo ou (the horror, the horror) filatelista.

Dito isto, reparei que um par de blogueiras iniciou uma greve de fome (no caso em apreço, atrevo-me a sugerir a expressão alternativa greve de apetite) pelo retorno do Lutz ao nosso, dos blogueiros, convívio. É com juvenil entusiasmo que me junto à sua, delas, corajosa luta. Saiba que este seu criado se absteve, hoje mesmo, de consumir o ensopado de cabrito que abrilhantava a ementa do popular Retiro do Chico; e que se contentou com um banal bacalhau à Brás, seguido de robusta fatia de pudim Molotov – não, não por concupiscência, acerbo leitor!, mas para que no doce se afogasse a amarga dor da renúncia.

E não se atreva a ver nisto uma forma de pressão ou outras coisas que manifestamente não existem.

12.1.11

A 5ª de Schubert



O fantasma de Mozart apareceu um dia a Schubert. Ambos falavam alemão, mas apesar disso cada um entendia o que o outro dizia. E ao cabo de algumas horas de boa conversa, Wolfgang perguntou ao colega:

“Não tenho mãos para o fazer eu mesmo; escreverias uma sinfonia por mim?”

Soubesse Schubert que morreria ainda mais novo do que Mozart e talvez não tivesse dito que sim.

8.1.11

Bandeira de Papel

Cravo & Ferradura, DN, Janeiro 2011

6.1.11

Questões de Moral

A minha filha, que faz vinte anos daqui por uns dias, diz-me que está “velha”. E pergunta-me: “Achas que já tenho idade para mentir sobre a idade?”

4.1.11

Ditongo Alentejano

“Sou uma mulher simples, mas não sou cega nem surda, Manel. É essa moça da cidade que veio morar aqui para a aldeia. Está fazendo de ti um tonto.”
O pastor afundou-se um pouco mais na samarra.
“Não digas disparates, Dores.”
“Estás vendo? Já nem pronuncias o –e em posição átona final como –i.”
“Tolice. Estou chupando uma azeitona.”
“E o –i em lugar do –e pretónico? E a ditongação de –e em –ei?”
Manel dobrou-se devagar e aconchegou as achas da lareira, tentando ganhar um pouco de tempo. Como não se apercebera que andava ditongando o –e?

29.12.10

Bandeira de Papel

Bandeira de Canto, JN, Dezembro 2010


24.12.10

Aaaaaaah.

Feliz Natal.

Bandeira de Papel

Cravo & Ferradura, DN, Dezembro 2010

18.12.10

Os escritores

Os escritores haviam de ser sujeitos a controlo anti-doping. E todos sabemos por quem deviam começar.

13.12.10

Dedicatórias de Paris

Librairie Eug. Rossignol, infelizmente fechada ao Domingo. Dedicada ao Valkirio.

Basquiat no Palais Tokyo. Dedicada à Io.

Opéra Comique em noite de Lully. Dedicada ao Luís M. Jorge.
 
O boulevard Saint Germain no início de um nevão. Dedicada à Tinta da China.
 
Vélos sous la neige. Dedicada ao Pipoco mais Salgado.


Bandeira de Papel

Cravo & Ferradura, DN, 13.12.2010

12.12.10

Mínimas

Todos os aforistas generalizam.

Barriguinha

O gozo começou assim que experimentei a t-shirt. Quando é que nasce o poneizinho, hahaha e coisas do mesmo calibre. Só pararam quando os ameacei de que, se persistissem, faria as minhas compras noutra loja.

Conto curto

Um Homem Seguro de Si passeava pela avenida e pensava para com os seus botões: “Um Arquitecto Famoso desenhou-me a casa; um amigo, Designer de Interiores, mobilou-ma; visto apenas a roupa que um Estilista Premiado desenha para mim e não como senão em restaurantes aconselhados pelo meu mordomo. Sou finalmente uma Pessoa de Bom Gosto”.

Vivendo comigo

Dois tipos entram num bar. Ou seriam três? Agora perdi­-me.

Crueldade civilizada

Conversar fazendo pausas embaraçosas.

Para quê?

Os parisienses de seiscentos não sabiam construir com tijolos. Quando Luís XIII (acho que foi Luís XIII, está lá uma estátua dele) ordenou que se erguesse uma praça com prédios em tijolo, eles construíram-nos em pedra e pintaram rectângulos vermelhos nas frontarias. (Entrámos na velha Place des Vosges já de noite. Percorremos as arcadas ataviadas com sedutoras galerias de arte, mas não nos aproximámos das paredes. Para quê? Deixá-los pensar, aos empertigados dos parisienses, que nos enganaram bem enganados.)

10.12.10

C'est dommage.


Ao contrário do que por cá foi noticiado, não houve nenhuma situação atmosférica de excepção que nos impedisse de regressar de Paris.
Rezámos toda a semana para que acontecesse, mas não aconteceu.

9.12.10

Não me tenho

com a excitação de saber que vou assistir ao debate entre Cavaco e Alegre. Devia haver, nas entradas de todas as cidades do país, contadores luminosos decrescentes.

30.11.10

Bandeira de Papel



Bandeira de Canto, JN, Novembro 2010


À lareira

De partida para Paris, onde estão – só vimos ontem – temperaturas máximas negativas.
Ok, talvez deva levar antes duas t-shirts.

29.11.10

Bandeira de Papel



Revista Obscena, Julho 2008



25.11.10

Um livro 5 estrelas


É já no próximo Sábado, dia 27, impaciente leitor, que vai ter lugar o lançamento de O Fio à Meada, uma colectânea de textos sobre o programa espacial russo (Russki Spasski Progriama), ou talvez de diálogos com personagens famosos, agora assim de repente não me lembro bem. Só sei que os cosmonautas, ou os autores, são dez; e que eu também vou lá dentro, provavelmente para ser sujeito a experiências sobre a capacidade de resistência dos corpos no espaço.

Cada membro da Assistência (reparou na inicial maiúscula?) terá direito a um lançamento contra os contistas presentes, entre os quais se inclui este seu criado. Os volumes que acertarem no alvo serão, naturalmente, assinados. Eu estarei disfarçado de Adriana Nogueira, professora de Estudos Clássicos na Universidade de Faro. A Adriana irá mascarada de marmanjo de barba grisalha e ar de quem não entende muito bem qual o seu lugar no Universo. Poderá desmascarar-me forçando-me a falar: não sei camuflar a minha voz de barítono. O Miguel Neto, editor, servirá guardanapos de papel para os croquetes que poderá adquirir no bar a um preço escandaloso.

Quase me esquecia de dizer que o lançamento do Sputn… perdão, do livro será às 17 horas, na FNAC do Vasco da Gama, em Lisboa. A organização deste evento obrigou ao término da Expo 98. Após as 18:30, o local passará a chamar-se “Parque das Nações” (achámos que era um nome com pintarola).

Apareça, vá lá. O que é que eu tenho de fazer? Hã?

Bandeira de Papel: A Greve Geral

Cravo & Ferradura, DN, 24.11.2010

21.11.10

Sem palavras

Conheci o Pedro Beça Múrias. Não chegámos a ser próximos: estivemos juntos mais do que uma vez e conversámos longamente certo dia, durante um almoço/entrevista que foi muito mais cumplicidade, riso e boa conversa do que entrevista propriamente dita.
E hoje senti a falta do tanto que poderíamos ainda conversar.

Bandeira de Papel

Um diletante e um jardim entraram um dia num bar

A minha mãe sente-se mais só aos fins-de-semana, quando na avenida fecham as lojas e os cafés e a lufa-lufa esmorece. Quando o meu pai era vivo, ela não sentia essa solidão, claro, ele era um homem tão activo. Até ter bem mais do que sessenta anos, divertiu-se saltando de curso em curso: de Medicina para Línguas Clássicas, daí para a Petrologia, passando pela Álgebra, pela Botânica, pelas Belas-Artes. Sem meios de subsistência, sobrevivia pintando e escrevendo sebentas que os outros alunos lhe compravam.

A minha mãe assinou hoje a petição a favor do Jardim Botânico. E escreveu lá na caixinha para comentários que aquele era o jardim favorito do meu pai. Faz sentido, pensei, fica mesmo ao lado da Faculdade de Ciências, que ele frequentou. Mas comovi-me, caramba. Não fosse eu o céptico que sou e estaria explicado por que razão me sinto ali como em casa.

20.11.10

Please refund

Livros áudio têm os seus contras. Entre outros, o de não se poder abri-los numa página ao acaso para, por exemplo, saber em que língua estão, eh, lidos. E no entanto, ele há coisas que faz sentido comprar em alto e bom som, como a celebrada prelecção do Dr. Yossi Ben Tolila sobre Heinrich Heine que, tanto quanto julgo saber, hélas, não existe em papel (aproveito para perguntar: para quando uma edição comentada dos discursos de Jorge Sampaio e Aníbal Cavaco Silva?).

Eu não ouço realmente essas coisas, note o nefelibata leitor, apenas as passo na aparelhagem para tentar impressionar a cara-metade. Eis a razão pela qual não fiquei incomodado quando me apercebi de que o Dr. Tolila fizera toda a sua prelecção em hebraico. Agora que os livros áudio têm os seus contras, isso têm.

Bandeira de Papel

18.11.10

O Botânico

E que tal

…assinar a Petição em defesa da Missão do Jardim Botânico e da sua sustentabilidade ambiental, social e económica a longo prazo. Revisão imediata do Plano de Pormenor do Parque Mayer, Jardim Botânico, Edifícios da Politécnica e Zona Envolvente? Apesar do nome, é uma Coisa Boa. Funciona assim: o leitor, cómoda e rapidamente, assina; os responsáveis, alertados, apercebem-se de que existem muitas pessoas preocupadas com o que eles estão a planear fazer na zona do Parque Mayer e Jardim Botânico; por fim, lavados em lágrimas, arrependem-se e alteram os seus pontos de vista, salvando as árvores e outras plantas nossas amigas de um destino cruel. Hum? Vá lá.

16.11.10

Bandeira de Papel


Cravo & Ferradura, DN, Outubro/Novembro 2010

15.11.10

[...]

A tristeza é um estado de calma.

13.11.10

Turner y los Clic

É proibido tirar fotografias na maior parte dos museus e mostras de arte. Não gosto, mas compreendo a interdição. Eu não quereria visitar uma exposição de, digamos, Matisse ou Gauguin com todos aqueles flashes convertendo a experiência numa performance estroboscópica e transformando em cores vivas a subtil paleta pastel característica das obras deles (é uma verdade cientificamente comprovada que a maioria dos utilizadores de câmaras digitais não apenas não sabe desligar o flash como acredita que se trata de um relâmpago caindo num momento de sorte). Além do mais, os museus e as galerias precisam desesperadamente de vender os seus próprios produtos de merchandising. Onde encontrar hoje uma reprodução da Mona Lisa numerada e assinada pelo autor a não ser na lojinha do Louvre (desça as escadas, primeira porta à direita logo a seguir ao WC das senhoras, a senhora Gagnebin tem a chave)? As que andam por aí são todas piratas e, desde que um tal Duchamp teve a ideia, muitas vêm com bigodes e pêra bem maiores do que os do original.

Muito mais alto do que a solidariedade para com galerias e museus, porém, fala a minha costela libertária. Na visita que recentemente fiz ao Prado para ver a pintura de Turner e seus mestres, não tive mão em mim e atrevi-me. Houvesse o leitor assistido como eu assisti à humilhação a que um iracundo funcionário (iraconde fonctionnaire) sujeitou um pobre turista mochileiro (touriste mouchilier) apenas porque ele apontou o telemóvel à namorada, houvesse assistido a isso, dizia, e teria tido, como eu tive, vontade de fotografar a exposição inteira. Pois foi o que fiz. Há coisas a que um português solidário não pode assistir e simplesmente ficar quieto.

“Mas, mas, já viu o que arriscou? Podia ter ido parar à Bastilha, onde o manteriam para sempre, comendo coxinhas de rã e bebendo Château Lafitte!”, ouço angustiar-se o afectuoso leitor. Bom, é certo que os gauleses não têm sido meigos para com os seus estrangeiros, mas note que eu estava em Madrid.

J. M. W. Turner
Tempestade de neve: Aníbal e o seu exército atravessando os Alpes,
óleo sobre tela, 146 x 237,5 cm, Londres, Tate.

J. M. W. Turner
Roma vista do Vaticano: Rafael prepara os seus quadros para a decoração da Loggia
(ao centro, em baixo). Óleo sobre tela, 177,2 x 335,3 cm, Londres, Tate.

Claudio de Lorena
Porto com embarque de Santa Úrsula, 1641, óleo sobre tela,
112,9 x 149 cm, Londres, National Gallery.

10.11.10

Uma relação que deu em nada

A Netcabo deslargou-me. Melhor dito, que a língua e a culpa são duas coisas importantes para manter a sociedade coesa e tal, eu é que a deslarguei a ela. Por conseguimentemente, o endereço de e-mail que eu lá tinha será insultado por um deputado, feito em cacos e por fim atirado ao Trancão. Daqui por diante, quem enviar e-mail para bandeira[obaoba]netcabo.pt será sujeito a uma inspecção da Direcção-Geral de Contribuições e Impostos e verá a sua viatura coimada pela EMEL, mesmo que tenha estacionado em Bragança ou conduza apenas uma prancha de bodyboard.

Depois não diga que eu é que sou sacaninha, que não avisei e não sei que mais.

E este é para oferecer em qualquer ocasião.

Nazareth, linda praia de banhos (II)

Adenda
Mal as espreito no ecrã do PC, percebo que as fotos em baixo são, à excepção talvez da primeira (fosse este blogue um catálogo de exposição e eu escreveria que
convoca um universo maludiano e tal e tal), clichés. Mil perdões, mas publico-as na mesma. É difícil não se ser banal quando o vento insiste em empurrar-nos para o lado oposto àquele para onde queremos ir (prefere que visitemos o da falésia, decerto bem mais interessante), quando nos apercebemos de que, mesmo a cento e cinquenta metros acima do nível da água do mar, a chuva é salgada, ou quando olhamos a impressionante massa líquida sofrendo espasmos lá em baixo e imaginamos que toda aquela brutalidade pode ser contida num ridículo cartão Sandisk.
Em ocasiões como esta, haverá sempre fotógrafos atoleimados registando clichés. Eia, eia, viu aquela onda? Fotografei.
(Clique para aumentar)