O meu pai não era homem de muito entretém ao ar livre, mas barra nos bilhares, os fantasmas da cave do antigo Astória que o digam. No melhor pano cai o amaciador de roupa, porém, e certa vez deu-lhe para nos comprar umas canas, a mim e ao meu irmão – não imagino que idade teríamos mas éramos bem novinhos – e levar-nos a pescar para as furnas da Ericeira.
O que faz mover um pescador à linha? Melhor dizendo, o que o faz estar parado? Acho que ele pensou que era dever de pai ou assim, um ritual de passagem, como mais tarde seria beber o primeiro copo de vinho, fumar o primeiro cigarro e tirar a carta de condução de pesados.
O primeiro grande choque do dia foi quando entendi que havíamos entrado numa tasquinha para comprar uma lata de minhocas.
De minhocas.
O segundo foi no momento em que o meu pai me comunicou que deveria pegar num dos repelentes anelídeos e enfiá-lo pela cabeça
– pela cabeça –
num anzol. Veja se entende. Trata-se de pegar num ser vivo (mete-nojinho, ok, mas criaturinha de Deus), examinar-lhe a anatomia de forma a entender qual das pontas é rabo e qual é cabeça e implantar-lhe uma coluna vertebral numa operação sem anestesia. Neguei-me, é claro, vão pedir isso a um caloiro de Veterinária.
Antecipando as tendências do Mercado, o meu pai ofereceu incentivos financeiros. Cada minhoca enfiada num anzol valia vinte e cinco tostões. Mas ele sobrestimara a minha vontade de medrar à custa do sacrifício de outros seres vivos, mesmo em tratando-se de vermes repugnantes. Eu ia secretamente passando as moedas ao meu irmão e ele, menos escrupuloso ou mais prático que eu, dependendo da perspectiva que sobre o assunto se tenha, encarregava-se de trucidar as criaturas nos momentos em que o meu pai, poeta que também era, se dava à contemplação do vasto oceano.
Mais tarde eu soube, lendo Peter Singer, que o estratagema não me havia propriamente lavado a consciência.
Vem este intróito memorialista a propósito de um episódio que ocorreu há dias, quando eu, passeando no pontão de uma vila piscatória, pensava em como havia de organizar a véspera de Natal, está tão difícil acertar uma data com toda a gente. Um pescador saiu de entre as rochas e dirigiu-se-me, arfando e suando como se tivesse acabado de conseguir recuperar um comando de TV que havia deixado cair para trás de um móvel muito pesado. Ele tinha apanhado um peixe mas não o conseguia agarrar com as mãos nuas: o bicho debatia-se como alguém a quem disseram que a mulher o enganava com um lúcio, ou mais que um, até.
O homem pediu-me para segurar o fio enquanto ele ia buscar um pano. O meu primeiro impulso foi perguntar-lhe, pondo ar grave, se não sabia que não se deve ir nunca sozinho para uma pescaria. Imaginava que pescar era um pretexto para conversar, conviver, contar umas larachas, que qualquer coisa que por azar se apanhasse ia para o gato da terra. Ingenuidade minha, um verdadeiro pescador sente prazer no acto mesmo na maior solidão.
A verdade é que, quando olhei o peixe e vi o anzol forrado com uma minhoca meio fora da boca, fiquei sem reacção. Memento mori, lembra-te que um dia também tu morrerás. Segurei o fio e, aproveitando o momento em que o pescador descia às rochas onde tinha montado o seu centro de operações, tirei uma foto com o telemóvel. Eu sabia que ia querer partilhar este momento consigo.
O peixe parecia haver atirado a toalha ao chão, mas bastou que o seu verdugo lhe tocasse com as mãos embrulhadas num pano para que se debatesse como um aluno de uma escola secundária a quem ordenaram que desligasse o telemóvel. As barbatanas tinham uma espécie de espinhos que pareciam bem perigosos. Concluída a tarefa, o homem agradeceu-me; eu nada disse. Ele quase teve de me arrancar o fio das mãos. Talvez pensasse que eu lhe queria ficar com o peixe.
Não esperei para ver se o pescador devolvia a presa ao mar ou se a atirava para o balde. Para mim, o bicho não tinha sequer ar de ser comestível. Virei costas e, caminhando devagar em direcção à vila, comecei a deitar contas ao que podia ter comprado com todas aquelas moedas de vinte e cinco tostões. Ao tempo, caramba, ainda era dinheiro.
20.11.09
Memento mori
19.11.09
17.11.09
Alguns Contículos de Natal
Refrigério
Mariazinha nem filhos tinha que, no Natal, a consolassem da condição de mãe solteira.
Tirania
“Na China não celebram o Natal”, comentou a Laurinda. “Maldita ditadura”, rematou Anselmo, o marido dela.
Manifesto
A pândega anti-natalícia da Teresinha e seus amigos estava pendente da disponibilidade da Clotilde para trabalhar na véspera de Natal. Ela disse que sim. A má vida exige uma boa empregada.
Utilidade
Joãozinho era um homem mesmo muito pequeno. Na véspera de Natal, os colegas calceteiros ofereceram-lhe um escadote. O trabalho de Joãozinho ficou muito facilitado.
Exclusão
Todos os anos, na véspera da primeira Lua Cheia de Dezembro, os Mecânicos de Automóveis reúnem-se para o Jantar de Natal da sua Sociedade Encoberta. Este ano decidir-se-á, por proposta de um Membro, se os bate-chapas poderão vir a ser admitidos. Na Sociedade Discreta dos Bate-Chapas será levada à consideração dos Filiados uma moção semelhante em relação aos mecânicos de automóveis. Tendo sido informados por um Infiltrado de ambas as movimentações, os Electricistas de Automóveis entraram em estado de choque.
Óbito
“Morreu de exaustor”, informou o bombeiro. O funcionário da morgue olhou o corpo do Pai Natal (que mal pôde reconhecer pela roupa) e corrigiu: “De exaustão”. “Não, de exaustor”, insistiu o bombeiro.
Expectativa
“Este ano sentas-te connosco à mesa”, disse o patriarca, e o peru ficou todo inchado.
Pronto-socorro
Há pouco, na segunda circular, o pronto-socorro no retrovisor: “Dias Importantes, Lda.”.
11.11.09
Doutor Magnífico
Não sou do género de celebrar a morte de ninguém antes de passado pelo menos um milénio sobre a lutuosa ocorrência, mas para Anselmo de Cantuária, dito Doutor Magnífico e santo defunto faz este ano precisamente novecentos, abrirei excepção. Não tanto porque sejamos compadres ou isso, mas porque é provável que daqui a cem anos eu não esteja em posição de celebrar coisa alguma. Quero dizer, pelo menos não em pé e com um uísque na mão. Anselmo achou que não lhe bastava ter provado definitivamente a existência da Divindade com o seu Argumento Ontológico, aquele que parte da premissa de que Deus é algo maior do que o qual nada pode ser pensado (lembre-se, o centro comercial Colombo ainda não existia); ele teve que ir ao limite e demonstrar que Deus não pode sequer não existir.
[Eu fazendo uma pausa para pôr a tocar um CD de cantochão]
Traduzi este bocadinho do inglês para aquele leitor que não domina o latim e me envia sempre um e-mail quando eu escrevo “sic”. Voltei umas duzentas vezes atrás para conferir tudo, desculpe qualquer “que”, “qual” ou “Metropolitano de Lisboa” a mais:
“(…) de tal modo este ser tão verdadeiramente existe que não pode sequer ser pensado como não existindo. Pois é possível pensar algo como existindo que não possa ser pensado como não existindo, e este é maior que aquele que pode ser pensado como não existindo. Assim, se algo-maior-do-que-o-qual-não-pode-ser-pensado pode ser pensado como não existindo, então algo-maior-do-que-o-qual-não-pode-ser-pensado não é o mesmo que algo-maior-do-que-o-qual-não-pode-ser-pensado, o que é absurdo. Algo-maior-do-que-o-qual-não-pode-ser-pensado existe portanto tão verdadeiramente que não pode ser sequer ser pensado como não existindo.”
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[Não convencido? Insira o seu próprio argumento aqui]
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Tomás de Aquino riu-se um pouquinho e Descartes roeu-se de inveja, mas Kant estilhaçou uma chávena de porcelana com as mãos nuas, eurekando nesse acto que um objecto apenas pode ser percebido no Tempo e no Espaço e jurando que passaria a expor os seus próprios argumentos em parágrafos que tivessem um número fixo de caracteres aleatórios.
Kant tinha auctoritas e a vantagem filosófica de dominar o alemão, sobretudo se este fosse pequeno; o argumento de Anselmo parecia defunto e enterrado. Mas ainda há bem poucos anos encontraram na fórmula novas qualidades, furtivas subtilezas, que aquilo afinal não era tão manhoso quanto se dizia e não sei quê. E exumaram a coisa. Disse-se milagre, estava tal qual a tinham deixado tantos anos atrás, talvez só um pouco mais cabeluda.
Santo Anselmo, note, não era apenas o seu Argumento Ontológico, tenho pelo menos 544 páginas dele. Olhe aquilo da processão, super interessante. Pode algo proceder de si mesmo? Sim, desde que se conheça as pessoas certas, estou ainda a procurar uma forma suficientemente obscura de expor o pensamento do Doutor Magnífico. Destinava-se aos gregos que Anselmo ia mandatado para chatear no Concílio de Bari e que não acreditavam que do Filho pudesse proceder um Espírito Santo. Acho que não vai ser muito difícil.
Ok. A verdade é que eu gostava de ser convidado para Director da Cadeira de Estudos Anselmióticos – Anselmianos também pode ser, não farei finca-pé – na Faculdade de Belas-Artes, ou, não havendo espaço para o meu gabinete suportado por colunas egípcias com capitéis em forma de flor de lótus que se vão abrindo desde a porta até à minha secretária, na de Medicina, ou Agronomia, porque não. E para que isso aconteça, lembrar o aniversário é fundamental, sobretudo quando mais ninguém lembra, uma vergonha.
Uma alternativa seria a direcção dos Estudos Norrianos, mas, para além de “norrianos” soar mal às pessoas (fiz sondagem), Chuck Norris não tem, no seu monte de argumentos, nenhum que seja verdadeiramente ontológico.
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Nota: o original em inglês do texto citado é da edição da Oxford University Press e da Cadeira de Estudos Pamelandersonianos da referida universidade, que irresponsavelmente publicou Anselm of Canterbury: The Major Works, uma compilação das maiores obras do antigo arcebispo de Cantuária (e-mails com perguntas e pedidos de dinheiro devem ser endereçados para lá; grato). “Maiores” não é hipérbole, o livro tem mais de quinhentas páginas e aguenta-se em pé sozinho desde que não haja animais de estimação por perto. Mas, o Senhor seja louvado!, é barato, umas dez libras apenas.
10.11.09
4.11.09
Se forem a falencia, nao venham dizer que a culpa e minha. Ate ja
Não se pode andar a saltaricar, como eu o faço, de villa em villa, hoje aqui e amanhã acolá, sem sofrer consequências. Os vários mordomos e governantas tiram licenças com vencimento quando lhes dá na gana. Controlar a criadagem menor torna-se simplesmente impossível. Também os serviçais adultos se acham de súbito senhores do seu destino. E não, por favor não me pergunte pelos jardineiros: metade dos quartos foi invadida por heras, glicínias, presidentes de junta derrotados nas últimas autárquicas e a(o)s namorada(o)s dele(a)s.
Mas tudo isso mais não é que restolho na espinhosa trilha da vida, leitor. O que me dá dores de cabeça, mesmo, é o descaminho da correspondência.
Ainda há dois dias eu havia pago uma factura da TMN. Avantajada, é certo, mas o facto de eu estar em contacto permanente com o presidente Obama e com a primeira expedição uzbeque à Antárctida justificará talvez a quantidade inusitada de dígitos. Foi portanto com estranheza que no dia seguinte, ou seja, ontem, percebi que estava impedido de fazer chamadas, despachar sms ou enviar para pessoas de quem não gosto mensagens multimédia com fotos da minha pessoa em nu integral.
A explicação, assim como os elementos necessários à regularização da situação, viriam pouco depois e sob a forma de mensagem escrita. Alegava-se, por palavras que a seguir citarei ou outras de muita equivalência, que eu me encontrava, na medida em que devia à instituição que agora me contactava uma determinada importância – pequena ou grande pouco importa, é o princípio da coisa que está em causa e a Ética e tal – na condição de pífio caloteiro, reles burlão, sórdido abusador de redes sem fios. Não consegui deixar de pensar que talvez me pudessem ter enviado o sms antes de me barrarem o telefone, mas há que compreender que, mais que procedimentos, estas coisas são rituais.
A conta bancária da TMN, que devido à minha incúria decerto bordejava abaixo de zero, foi de imediato suprida. Não o fazer e arriscar o envolvimento das Autoridades teria sido perigoso, podia chamar a atenção para a questão daquele livro que não cheguei a entregar na biblioteca. Duas ou três horas mais tarde eu tinha ainda o telemóvel barrado, mas recebi com alegria o sms que a seguir, e respeitando a gramática e semântica criativas do original, transcrevo:
"tmn
Promocao 5 Euros Semana: fale gratis para a rede tmn durante 7 dias por apenas 5EUR. Para aderir envie Sim para 12122. Ate ja."
Amigo que sou de ajudar empresas de comunicações móveis, quis enviar um entusiástico Sim para o 12122. Pensava eu que, pelo tom do sms, tudo me havia sido perdoado, esquecido o crime, reparado o dano. Mas o sistema retrucou que eu, deplorável trapaceiro sem vergonha, não tinha autoridade para enviar mensagens, nem mesmo desafiado e para um número com apenas cinco dígitos.
Neste momento, ao que percebo, já me é possível fazer chamadas e enviar sms. O primeiro será para o 12122 e conterá três letrinhas apenas: “Nao", ou talvez “Mae”, ainda não decidi.
2.11.09
Um gajo ao banho
Quatro trabalhadores, talvez de instalação de TV por cabo ou de Internet, gozam a vista do passeio marítimo num restaurante da Nazaré. Aguardam que lhes sirvam uma feijoada de marisco. Lá fora sopra uma aragem, branda mas fria. Para lá da falsa linha mais ou menos horizontal que divide o longo areal e o mar, um solitário em tronco nu e fato de banho contempla o oceano. Os braços estão cruzados, as pernas não se vêem. A espuma que as ondas fazem, muito branca, atinge por vezes o triplo da sua altura.
“Olha ali um gajo ao banho.”
“Ãh.”
“É mentira? Olha lá.”
“É maluco.”
“Ainda bate a água.”
“Já bateu.”
O banhista desaparece do campo de visão. Calculo que esteja agora espraiado na areia a ler o jornal ou o último de Dan Brown. Guarda-se um minuto de silêncio. Depois,
“A onda levou o gajo.”
Novo minuto de silêncio. O banhista não reaparece. Sem mais delongas, a conversa é desviada para o Braga-Benfica.
Amigos-do-senhorio
Um Artista Performativo (que calha ser também meu filho, veja a coincidência, como a vida é mesmo um livro de Paulo Coelho) leva a cabo uma Instalação de Si Mesmo no espaço expositivo do Chiado, durante a mostra que hoje terminou, De Amadeo a Paula Rego, 50 anos de Arte Portuguesa (1910-1960).
[Eu pensando em como seria homem para oferecer os amigos-do-senhorio se um dia decidissem pendurar de vez o acervo do museu em qualquer lado]
30.10.09
Seattle, we have a problem
Não estou ainda muito familiarizado com o Windows Vista. Pode ser até que algo de óbvio me esteja a escapar, não seria a primeira vez, olhe os meus três divórcios. Mas isso de eu fechar uma “aplicação”, como eles lhe chamam, e de imediato surgir uma janelinha informando-me de que “o programa x deixou de funcionar” parece-me, sem querer ser grosso, uma lapalissada das grossas.
Mas o pior é o “estamos à procura de uma solução para o problema” que se lhe segue. Imagino, à medida que entro em pânico, os alarmes zunindo em Seattle, centenas de engenheiros informáticos saindo da cafetaria e dirigindo-se para as suas consolas como se um satélite tivesse começado a dançar o cancan em órbita, organizando reuniões de urgência, suando muito e bebendo litros de Coca-Cola, todos ligando para casa dizendo às mulheres, maridos e contabilistas que vão chegar tarde, e tudo isso apenas para tentar entender por que razão o meu programinha deixou de funcionar. Eu odiaria dar todo esse trabalho de cada vez que clico na cruzinha “fechar” do Internet Explorer ou encerro a aplicação que detecta a presença do ectoplasma do Elvis.
Mas enfim, esse absurdo sempre tem um botão para cancelar – o que não sucede, convenhamos, com a maior parte dos absurdos.
Bistrot (ou bistro, é como quiser)
Na semana passada jantámos, a D., a C. e, provavelmente, eu – perdoe a incerteza, atravesso uma ligeira crise existencial –, num bistrot mesmo em frente ao Parlamento.
[Eu resistindo à tentação de fazer piadas do género “onde as rendas são quase de graça” , seria fácil de mais]
Não houve tempo para apreciar o comer – ainda há dias a minha mãe, no seu aniversário, havia comentado “Que bom é comer o comer quando não se teve que o fazer”, achei isso tão poético –, porque daí a nada começava One doubt arose in the mind of a noble vigilante, do grego Georgios Anamateros, na Sociedade de Instrução Guilherme Cossul. Conhece a Sociedade? Às sextas fica quase a meio da D. Carlos I, nos restantes dias não imagino.
E agora um pequeno parêntesis:
( )
Voltemos então ao restaurantezinho “francês”. Coloco-o entre aspas porque um amigo geralmente bem informado em questões de geoculinária diz que aquilo lhe parece ser, afinal, belga. Isso explicaria o grande mapa de França pendurado numa das paredes. Vá, admita que não é capaz de reconhecer os contornos à Bélgica. Nem mesmo um belga seria capaz de reconhecer os contornos à Bélgica. E depois, eu já andava suspeitoso de que os valões ruminam há anos planos secretíssimos para a anexação da França. Por causa das anedotas e do vinho, mas também para deixar os flamengos chateados, briguinhas sobre tamanho, sabe como é.
Tanto a atitude solícita como a compleição trigueira da senhora que nos atendeu pareciam confirmar as minhas suspeitas. Mais depressa seria cherokee que francesa. É certo que uma belga também havia de ser desbotada mas, tirando o Tintin, quem sabe ao certo como é um belga? Os óculos de redondos aros dourados, o cabelo grisalho cortado à rapazinho, a figura esguia e o sotaque que carregava em demasia fizeram-me adivinhar a sua presença em acaloradas reuniões conspiratórias a horas defuntas, exactamente como as que ocorrem em O Homem que Era Quinta-Feira, do Chesterton, mas de um modo completamente diferente. Nada de mais, cada um deve poder fazer o que lhe apetece desde que seja dentro de portas, olhe as térmitas.
Enquanto tudo isto eu ponderava, pareceu-me ver distintamente – e olhe que, para Descartes, ver distintamente era já prova – Hugo Ball, o próprio, gritando instruções para a cozinha. Foi o momento em que entrei irreversivelmente (ou durante algumas horas, vá) no meu estado rotineiro de incongruência cerebral. O vinho era bom, mas não devia talvez tê-lo misturado com ansiolíticos.
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Nota: One doubt arose in the mind of a noble vigilante (escrevo sem maiúsculas iniciais porque era assim que vinha no programa e eu, leitor, eu respeito essas coisas) era, segundo o autor, Georgios Anamateros, a musical tale of love, jazz, inspiration and secrets. Quem nos atraiu ao covil foi a bela voz da Marta Hugon. Mário Franco no baixo e Pedro Carvalho na bateria estiveram nota dez. O grego, para além de autor, também tocava piano e – eh… – cantava, ok, vá, razoavelmente, mas falava português, e isso deixa-nos sempre de lágrima ao canto do olho, certo? Marinela, anunciava o panfleto, era Deus Ex Machina. Eu esperava engenhocas em madeira e uma Marinela surgindo das alturas entre ribombar de trovões, mas afinal veio de trás e sapateando, o teatro clássico já não é o que era e também não havia espaço. A história, essa, era de amor; a mensagem, se a havia, satiricamente ambígua (“Ponha bombas, mas não como um terrorista”? Hmm); a música, muito anos 30, e isso é uma Coisa Boa.
Comida para o pensa
Terminei A Sentimental Journey through France and Italy, de Laurence Sterne (1713–2009–1768). Não é indigno de The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman, mas termina com a abrupta incompletude da frase
“So that when I stretch’d out my hand I caught hold of the fille de chambre’s”
e logo a meio de um episódio empolgante, aquele em que o protagonista e narrador, Yorick – a alusão a Shakespeare não é inocente –, discutindo com uma jovem dama de pudicas exigências com quem se vira forçado a partilhar o quarto de estalagem, deita a mão a qualquer coisa, jamais saberemos o quê. Eu antes queria que Sterne tivesse acabado o livro e este me tivesse sido lido ao serão por, sei lá, olhe, pelo general Eanes.
[Eu pensando em como só escrevi isso porque não existe o mínimo risco de acontecer, haha]
Acho que não posso sequer dizer que tenha terminado o livro. Deixarei um espacinho extra na estante de forma a acomodar o que falta de lombada mas preservando a ideia de lacuna existencial, como o leitor entrando no cafezinho parisiense de Sartre e vendo apenas a ausência daquele com quem se queria encontrar. Esse vãozinho falará volumes. De cada vez que eu ali poisar os olhos, sentirei comoção e meditarei sobre as circunstâncias que cruelmente determinam a condição humana, após o que irei almoçar, jantar ou cear, dependendo da hora.
Conheço outros exemplos de obras que não chegam ao fim, desde a 16ª sátira que Juvenal inacabou (ou cujo final se perdeu) a O Castelo, de Kafka, mas esses sempre terminam com frases completas. Fragmentos com nome de remédio não contam, ok? Olhe, assim de repente, vem-me à memória outro caso de um volume que termina a meio de uma frase. Falo de Finnegans Wake (reparou que lhe chamei “volume” e não “livro”? A isso dá-se o nome de “prudência”), de James Joyce, que termina assim:
“A way a lone a last a loved a long the”
Em boa verdade não posso dizer com segurança se termina ou não, porque parece dar uma longa volta até à primeira frase do texto, a cuja, muito convenientemente, começa a meio:
“riverrun, past Eve and Adam’s from swerve of shore to bend of bay, brings us by a commodious vicus of recirculation back to Howth Castle and Environs.”
Sterne sempre tem a desculpa de que morreu, não teve hipótese, ele bem queria ter chegado a escrever qualquer coisa sobre Itália, mas não deu.
29.10.09
O ginásio não existe
Concordámos tacitamente, a D. e eu, em fingir que o ginásio não existe. Não falamos sequer sobre isso, limitamo-nos a não tocar no assunto.
Adiar algumas coisas é bom. Antes da prorrogação vivemos ansiosos, sentimo-nos culpados. Toma-se a decisão em comum, mesmo se apenas de forma implícita, e chega o alívio, a serenidade, a paz de espírito. Temos a certeza de que regressaremos ao treino: afinal, somos adultos responsáveis. Apenas não o queremos ser neste momento.
Falar da coisa não é bom. Surgem as falhas de carácter. Perde-se o controlo. Todos conhecemos casos dramáticos de gente que não soube lidar com as faltas ao ginásio. “Esta semana não vou ter nem tempo nem paciência, anda um gang atrás de mim julgando que roubei a cocaína deles”. Alastram as manchas de suor nas axilas, por muito desodorizante que se use. “Ainda por cima o administrador não me larga com o negócio dos porta-aviões”. E acaba-se no descalabro moral. “Passas o dia a esfregar-te no tipo que limpa a piscina” ou “Não gosto quando apareces vestido com cueca de fio dental”. Quem nunca ouviu desabafos como esses num qualquer restaurante de uma zona de escritórios?
É bem melhor concordar tacitamente em fingir que o ginásio não existe.
Mo apura
Ontem à noite, na biblioteca de Oeiras, Júlio Pomar comentou o mais recente Caso Saramago dizendo, entre outras coisas, que nem mesmo o Código Civil deve ser interpretado de forma literal. Lembrou-me de quando o Stendhal ia lá para casa ler precisamente o Código Civil: dizia ele que era para “depurar o estilo”.
Eu achava isso curioso porque, a mim, dá-me a sensação que mo apura.
28.10.09
27.10.09
Inquietação
Amigos de longa data trouxeram-lhe chocolates de Barcelona. Eu até lhe tinha dito para resguardar a caixinha, que não queria ter essa incitação perto da vista, que os chocolates eram bons de mais e eu nem fazia questão, que eram dela, eram dela e pronto. Mas uma hora atrás deu-me um apetite. Uma coisa incontrolável. Uma tentação que teria feito Simeão Estilita precipitar-se lá do alto da sua coluna. “Só um”, pensei, “Só um nem se nota, não vai fazer mal”.
Abri a porta do frigorífico, como de costume atulhado, e procurei nos locais mais óbvios. Nada. Arredei saquinhos e tupperware das prateleiras, inspeccionando-os miudamente. De certeza que não os havia tirado da caixinha, teria sido uma profanação, quase um sacrilégio, uma caixa tão elegante. Fui libertando o electrodoméstico de secos e molhados. Ele havia maionese de ovo e de soja, leite, queijos frescos e curados, uvas, chouriços, vinho, salmão fumado, manteigas e margarinas, ensopado de coelho, sopas, saladas, tomates, alhos, cebolas, pescada e legumes cozidos, pão, broa, iogurtes, o que quiser. Mas chocolates, nada.
E agora estou preocupado porque aquilo, fora do frigorífico, estraga-se.
26.10.09
22.10.09
Toca-me ao de leve
Primeiro no braço, depois na cara. Agora a língua demora-se nos dedos da mão direita. Abro os olhos para confirmar que, noite ainda, o pequeno triângulo que a Camila tem por nariz está a poucos milímetros da minha face, cheirando nem ela sabe exactamente o quê. Acho que é apenas um hábito, como fumar ou construir rotundas.
Encontro o telemóvel às apalpadelas e tento ver as horas fechando o olho direito, aquele que atrasa mais. São seis e picos.
[Eu pensando em como uma pala à Joyce me daria talvez um ar de pessoa interessante]
Para um insone do clube imaginário que frequento em Pall Mall, acordar imediatamente antes do nascer do dia obriga – vem no regulamento – a que desista do sono e me console com a contemplação da alvorada e a audição dos pássaros, que a essa hora estão hiperactivos. Devia talvez desfazer comprimidos de Ritalina em pedacinhos de pão e espalhá-los pelos parapeitos das janelas. Estou a brincar, estou a brincar, desvie esse olhar reprovador de amiguinho dos animais. Aquilo só ia acalmá-los um pouco. Acho.
Ok, Camila, já estou acordado e sentado na cama.
Sou figurante num quadro de Hopper.
Que fazemos agora? Conversamos? Vemos um filme? Saímos para tocar campainhas e depois fugir?
Isso no campo não dá gozo, a esta hora já está toda a gente a conduzir tractores, mas sempre se espairece um pouco. Quem sabe ganho até fama de idiota da aldeia, eu nem sei se já têm um por aqui.
Mas a gata Camila quer apenas ter a certeza de que estou a postos para a eventualidade de aparecer alguma mosca grande de mais. Vira-me as costas de zebra e desce rapidamente as escadas, sumindo-se naquele local para onde vão os gatos quando não querem ser incomodados e que nunca ninguém entendeu exactamente onde fica.
Arrasto-me até à biblioteca e tento escolher um livro. Hercúlea tarefa. Nas prateleiras da datcha há tesouros inestimáveis (e que tenciono manter estimados), cada um mais interessante que o outro. De vez em quando aquele barulho característico lá em baixo, e eu pensando, ah, que se lixe, era apenas um Júlio Pomar.
Olha, há aqui livros do Saramago. A esta hora anda Paranoico Pérez, o personagem de Vila-Matas, a queixar-se de que o lanzarotense (é assim que se diz?) lhe roubou mais uma ideia. Logo agora que Pérez ia virar as religiões do Livro de pernas para o ar e, libertado das grilhetas da falsa demência por multidões ululantes – a muitos a palavra obviamente recorda Nelson Rodrigues, mas a mim lembra-me o Judicium Salomonis de Carissimi, ou seria o Stabat Mater de Pergolesi? Bem, pelo menos num deles sei que havia multidões ululantes, ou alguém que ululava ou isso –, escapar finalmente do manicómio, denunciar Saramago e assumir no Panteão da Literatura Mundial o lugar que é seu por direito.
Sento-me e começo a folhear Magna Graecia, um desses calhamaços de mesa de café que podiam ter o Relatório & Contas da Cimpor lá dentro sem que alguém jamais desse por isso (os bonecos são muito bons).
Antes que eu possa ilustrar-me sobre a presença helénica na península itálica, ressurge a gata. Mia duas ou três vezes, salta para o braço do sofá e estira-se a meu lado. Eu poiso o livro, faço-lhe a festinha da praxe e sussurro-lhe:
Ok, estou a ver, dás-me uma segunda oportunidade. Vemos um filme? Queres que te leia um livro?
E ela, como sempre faz à mínima sugestão de um programa a dois, salta para o chão e some-se nas trevas. Não foi Einstein quem disse que loucura é tentar a mesma coisa muitas vezes e esperar um resultado diferente? Ele trazia o soalho daquele cérebro sempre muito bem encerado.
Recosto-me no sofá e os olhos caem sobre um velho amplificador de guitarra, daqueles a válvulas, um Yamaha. Penso em como um nome de moto assenta de forma estranha num objecto como aquele. É como chamar “Kawasaki” a um uísque ou “Famel Zundapp” a um filho. E que será feito do Cat Stevens, ou lá como se chama agora? Penso nisso de quem terá nascido primeiro, se Fabergé, se o ovo, e para onde diabo vão os gatos quando não querem ser incomodados.
[Note to self: mudar a lâmpada queimada da luz ao fundo do túnel. Levar escadote. E lanterna, ou, no mínimo, uma carteira de fósforos.]
21.10.09
20.10.09
O Universo em três andamentos
Diz-me o bate-chapas da oficina de automóveis que arrendou parte do meu crânio (a que não está ocupada pelo cérebro) que apenas uma vez, em toda a música para piano de Mozart, se encontra a indicação de pianissimo ao lado de um fortissimo: é na Sonata Nº 8 em Lá menor. “Hawking”, acrescenta o factotum da oficina com os olhos perdidos no calendário Pirelli, “chamaria talvez a isso ‘uma singularidade’”. E o electricista jura acreditar que “Mozart teria sido capaz de compor o Big Bang”, o cujo, garante, “mais não é que um pianissimo seguido de um fortissimo”.
Eu ia contestar, um pianissimo não era de certeza, era género coisa nenhuma, quando muito um da Capo ou isso. Mas o mecânico meteu-se na conversa e lá do fundo, enquanto examinava o carburador do Ford Cortina do meu pai, pôs-se lírico:
“Já imaginou? O Universo inteiro em música para piano?”
Calei a objecção. Durante uns minutos, uma eternidade, todos os outros sons se envergonharam e ouviu-se a Sonata número 8 em Lá menor, de Mozart, o homem que podia ter composto o Big Bang.
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Posta restante: caso queira ouvi-los, os dois outros andamentos, também interpretados por Lipatti, estão no You Tube. Não importa agora em que circunstâncias Mozart escreveu essa sonata (a morte da mãe, etc.) nem aquelas em que o pianista romeno, cuja interpretação é das minhas favoritas, a tocou pela última vez (já mortalmente doente). Ou, sem querer ser dramático, talvez importem. Afinal, Mozart apenas escreveu duas sonatas para piano nesse íntimo modo menor. Olhe, sabe que mais? Fica ao seu critério. Ok?
Com três letrinhas apenas (ou eram quatro?)
A minha mãe, que desfez ontem 08 anos, vem nos últimos tempos lutando com uma tendinite como S. Jorge com o dragão. Com mais galhardia até, diria eu, porque o santinho não teve que suportar dolorosas injecções no braço com que ferrou a mortal lançada na lagartixa. E como sobreveio tão lamentável moléstia?, pergunta o geriátrico leitor; pois arranjou-a, respondo eu, por andar a ler blogues até ao raiar da bela Aurora em posições não recomendadas pelo manual do seu Sistema Informático.
Eu sabia que ela ontem iria receber de presente (para além de everestes de carinho, é claro) perfumes de irresistível fragrância, sedosas écharpes, elegantes carteirinhas, flores que fariam o primeiro Nabucodonosor, de inveja, suspender os jardineiros da Babilónia de cabeça para baixo nos jardins que eles mesmos haviam cultivado. Após todo esse luxo, que podia eu dar-lhe sem deslustre da minha condição filial? Alembrou-se-me que talvez a senhora gostasse de um conjunto de jantes de liga leve para pneus de baixo perfil, ou de uns faróis de tuning, mas depois ocorreu-me que a minha mãe não tem carta, quanto mais automóvel.
[Eu pensando que talvez por isso nunca a haja visto conduzir e em como isto está tudo ligado]
Decidi-me então por um transístor à antiga, do bom, resistente, com botões bem grandes, números que se vêem sem lupa, uma antena Magirus. Para ouvir os relatos de futebol lá do clube do coração dela, porque um relato de futebol tem que ser ouvido num transístor, nunca num rádio (ou não seria relato de futebol, seria?).
Como um galo de Barcelos ou um bidé, um transístor faz muita falta numa casa portuguesa. E pode ser que a minha mãe passe a ocupar o seu tempo com coisas que não lhe causem tendinites em vez de andar por aí a ler blogues na Net com sabe Deus o quê lá dentro, vi na TV que não são de confiança. Também já a fiz prometer que vai controlar os ímpetos noctívagos, que passará a tentar não recolher ao leito muito depois do passarinhar da alvorada.
E pronto, oh mãe adorada que tantas vezes injustamente me absolveste, parabéns.
19.10.09
Lá no Escritório
Fui intimado a contribuir com um conto para uma “reedição melhorada” de Outros Belos Contos de Natal, produzido em 2004 pela Escritório (antiga Chimpanzé Intelectual – entendo o porquê dessa mudança de nome, mas jamais me conformarei, farei abaixo-assinados na Net e manifestar-me-ei vestindo apenas cachimbo e essas coisas). A ideia era criar uma alternativa aos contos tradicionais da supracitada época festiva, o que julgo ter conseguido introduzindo a palavra “Natal” apenas nas últimas linhas e completamente a despropósito.
Terminei o texto e enviei-o para quem de direito. “Foi muito apreciado”, dizem-me simpaticamente por e-mail, e acrescentam que vão “revê-lo, paginá-lo e alterá-lo completamente”.
16.10.09
Not Toulouse
Depois não diga que eu não avisei.
(Ok, ok, pode dizer que eu não avisei da primeira sessão. Mas só da primeira.)
15.10.09
14.10.09
Ginásio Blues (I)
Venho fazendo, olímpico leitor, “treino acompanhado”. Ao que percebo, aconselham isso aos clientes cujo grau de descoordenação espacial pode resultar em processo contra o ginásio. Se existe uma probabilidade elevada de o seu nariz tocar o tapete rolante onde décimas de segundo antes estavam os seus Nike novinhos em folha, tem “treino acompanhado” tatuado na testa.
O problema é que a gente sente-se tão… enfim… acompanhada. Fiz um monte de exercícios que só percebi que eram exercícios quando o treinador me pediu para tentar não adormecer tantas vezes. O pior momento foi talvez quando me passou para as mãos uns humilhantes “pesos”. Pareciam daqueles ossos de borracha para cães, mas mais leves e em tons rosa. Fez-me sentar de frente para um espelho (há espelhos para onde quer que se vire, fazem de propósito para que sinta vergonha) e explicou-me que devia executar movimentos ritmados para fora e para dentro com os braços, como se estivesse a abrir e fechar as portas duplas de um armário mas sem a parte útil de retirar alguma coisa lá de dentro.
Só por si aquilo dos ossos cor-de-rosa já era embaraçoso, mas não tanto quanto o que se seguiu. Ouvi aproximando-se rapidamente por trás de mim o que me pareceu ser a respiração aflitiva de um rinoceronte com asma, ou um expresso inter-cidades com uma roda empenada e um grupo de poetas no interior ensaiando para uma sessão de leitura ao vivo, eu não podia ter a certeza. Era afinal um sujeito grande, parrudo, aquilo a que na minha juventude se dava o nome de “quarto de leite Vigor”, e quase me desarticulou a omoplata direita com a deslocação de ar que provocou quando passou por mim (não sou um homem baixo, mas não se esqueça de que estava sentado). Sacou rapidamente de um par de halteres de ar pesadíssimo que estavam encaixados numa estrutura metálica e, urrando a cada gesto como um urso a quem acabam de informar que o bosque onde ele planta umas couves vai ser aplanado para que uma multinacional sueca construa no local um centro de bricolage e artigos para o lar, começou a erguer e baixar os pesos como se estes mais não fossem que simples esferovite pintada.
Comecei a suar solidariamente. Quando o Sansão por fim parou, olhei primeiro para os meus ossinhos cor-de-rosa; depois, para os colossais halteres do, eh, colega. Então aproveitei um momento em que o treinador estava a dar atenção a uma senhora que tinha dúvidas sobre a flacidez dos glúteos. Apontei os halteres e, pondo o ar mais casual de que fui capaz, perguntei:
Já não vai precisar desses?
13.10.09
Romano, talvez
Aristóteles achava que a vida solitária é boa apenas para os deuses e para os animais, não forçosamente por esta ordem. Mas devemos talvez levar o que ele dizia com um grãozinho de sal. Afinal, estamos a falar do filósofo que afirmou que a mulher tem menos dentes que o homem, quando, como toda a gente sabe, é precisamente o contrário que se verifica.
Foi quiçá, dirá o leitor requintado que gosta de alternar entre “talvez” e “quiçá”, uma tentativa de humor. Talvez, mas piada falhada é suicídio social. Pior até que dizer “derivado ao”, barbaridade que um grego, posso garantir, jamais faria. E o estagirita não apenas deixou de ser convidado para banquetes – ou simpósios, por uma vez sejamos pedantes (ok, por duas vezes, a primeira foi quando escrevi “estagirita”, aí em cima) – como certa vez até o convidaram a sair da cidade onde fundara o seu Liceu, o que, aliás, prontamente fez “para que os atenienses não pecassem segunda vez contra a Filosofia”.
Não é muita presunção? Comparar-se a Sócrates, o homem que achava que havia uma forma ideal e sempiterna de almofadinha de agulhas. Mas lembre-se, tempos houve em que os ditames d’O Filósofo, como Aristóteles era conhecido entre os escolásticos, faziam lei. Houvesse à data um serviço público decente de odontologia – olhe, como o que temos hoje, hahaha – e não sobraria mulher em toda a cristandade com um único molar inteiro.
Como qualquer grego, Aristóteles decerto frequentava ginásios. Traduzida muito livremente, a palavra designaria algo como “campo de nudismo para amantes de desporto e outros”. O Cármides de Platão, uma obra sobre a temperança cujas primeiras páginas são, vá, algo destemperadas (leia uma tradução honesta, esqueça as vitorianas), pode dar-lhe uma boa ideia de como estes locais funcionavam. Não se tratava apenas de besuntar um amigo com azeite e depois tentar agarrar-lhe as coxas, mas também de conviver, de, enfim, participar na vida da comunidade. O apodo “idiota” servia, à época, para designar o cidadão privado, aquele que não se envolvia nos assuntos públicos. Hoje em dia, nos círculos políticos, diz-se daquele que, podendo lucrar com os assuntos públicos, declina fazê-lo. Tendo em conta os resultados eleitorais de alguns concelhos nas últimas autárquicas, percebe-se que algumas comunidades continuam de facto a achar isso uma idiotice.
Inscrevemo-nos num ginásio, a D. e eu, num dia em que sentimos o apelo da auctoritas do Filósofo. “Ah! Pôr os corpitos em forma, hmm?”, ouço perguntar o leitor assim mais embora aí comparar abdominais atrás daquela árvore e tal. Bem, no meu caso não exactamente. Escudo-me nas palavras de Santo Agostinho: “Não dá para explicar tudo num único volume”. Basta dizer que que a minha compleição exige alguns… eh… aperfeiçoamentos, digamos, aqui e ali, e que o médico entende que a banheira onde tomo duche pode com vantagem ser substituída por uma piscina de oito raias.
A D. foi mais por solidariedade para comigo, julgo eu, embora ela persevere em dizer que está, e passo a citar, “gordíssima”, o que é manifestamente falso. Ela pronuncia este “gordíssima” com tanta gana e de tal modo arregala os olhos quando o faz que a gata Camila se põe a seus pés, na esperança de que os globos oculares da dona um dia se soltem e caiam. Imagina talvez que a deixaríamos brincar com eles se isso acontecesse. Com um ainda vá, mas com os dois? Como se globos oculares nascessem nas árvores.
Quando a menina que nos serviu de cicerone me convidou a ir “espreitar o balneário masculino”, estranhei que ela não propusesse o mesmo à D., até porque achei que seria uma experiência mais interessante para ela que para mim. Secretamente fiquei satisfeito por ela não ir, é claro, por muito que a mente seja aberta a porta sempre chia um pouco. Entrei, dei uma voltinha e saí. A partir do momento em que cheguei à idade adulta, teria uns quarenta e tal anos, o meu contacto com balneários resumia-se a alguns episódios do Seinfeld e mesmo nesses os actores tinham a atenção de se envolverem em toalhas quando passeavam de um lado para o outro. Não aqui.
Perguntaram-me o que tinha achado. “Um monte de homens nus”, respondi com honestidade. A funcionária do ginásio soltou um prazenteiro “Espero que sim”. A D. riu-se e eu acabei por me deixar também levar na onda. Foi muito engraçado. Acho que não me ria tanto desde que Kostas Axelos tentou conciliar o Marxismo com a filosofia de Heidegger.
O mais chocante, porém – para além de perceber que o meu cadeado de cacifo era o mais pequeno de todos, alguns eram mastodônticos, há-de haver uma qualquer simbologia oculta nesse detalhe –, foi ter percebido que quase todos aqueles tipos estavam em muito pior condição física que eu. Senti vergonha por algumas daquelas barrigas, e olhe que nem eram minhas. Resta-me esperar que isso seja assim porque o ginásio é muito recente e os frequentadores ainda não tiveram tempo de ficar em forma. Uma coisa é certa: nenhum deles teria lugar num ginásio grego. Romano, talvez, mas isso é outra conversa.
Depois, bem, depois fomos visitar o bar e comprar um cadeado maior.
9.10.09
Reminiscência
Se o astronauta pudesse tirar o capacete em pleno Espaço sem que de imediato lhe rebentasse a cabeça, o vazio cheirar-lhe-ia talvez a lodo do cais.
Dois segundos
Um Deus omnisciente não perguntaria “Adão, onde estás?”, ele diria “Adão, tens dois segundos”.
7.10.09
Not Toulouse: um skecz
Recém-chegado do campo, não sou capaz de abrir a porta exterior da casa de Benfica: o código não funciona. Caras amedrontadas de idosas espreitam atrás de cortinas discretamente arredadas. Isso ajuda-me a entender o que se passa. Aquele troglodita que julga que sabe tocar guitarra eléctrica foi passar uns dias ao campo, terão pensado os vizinhos, e se ele já é como é, imaginem depois de uns dias na província: ‘bora lá mas é mudar o código da fechadura. “Não hão-de perder pela demora”, penso, decidido a vingar a afronta. Passo pelo Colombo e compro um álbum dos Doors. Vinil, nada de CD, se tem que importunar alguém ao menos importune-o com estilo. Esta noite vai haver Roadhouse Blues em Benfica all night long.
Decido voltar à casa de onde, quando soube das sondagens que dão a vitória a Isaltino, eu emigrara . Estou mortinho por um duche e um corte de barba e acho que tenho lá tudo aquilo de que necessito. Isso inclui lâminas de barbear, rede sem fios e, naturalmente, ansiolíticos. O resto – computador, livro de citações, etc. – está na mochila. Mal estaciono, caras atemorizadas de idosas espreitam atrás de cortinas discretamente arredadas. Percebo que os meus antigos vizinhos alimentavam no altar da esperança o desejo de não voltarem a pôr-me a vista em cima tão cedo. Felizmente não se lembraram de mudar o código da porta, continua a ser o número de conta do administrador do condomínio.
Só após a barba feita me apercebo de que não tenho after-shave. Sou uma daquelas pessoas esquisitas a quem a cara entra em combustão espontânea se não puser a loçãozinha imediatamente após a barba. Tento encontrar o meu sucedâneo favorito, álcool etílico puro. Também não há. É no momento fatídico em que disso me apercebo que os meus olhos cansados poisam – e se detêm – na prateleira das bebidas.
Meu Deus! Ele vai tornar-se alcoólico!, ouço gemer as duas velhinhas simpáticas que lêem este blogue e prefeririam que eu rezasse a algum santinho até que a irritação passasse e a dor se transformasse em prazer mórbido, como tantas vezes lhes acontece a elas quando tratam do buço. Mas não é em bebedeiras que eu estou a pensar, afinal sempre preciso de trabalhar daqui a pouco.
Vodka é a minha primeira opção. Não apenas tem uns 40º de teor alcoólico, como sempre emprestaria à coisa um certo ar de dignidade literária russa. Olhando a garrafa vazia apercebo-me de que a D. Luísa acabou com ela, como antes acabara com o licor de café. Impressionante como ela acha que eu não percebo que uma garrafa cheia é diferente de uma garrafa vazia. De uma, sai líquido; da outra, não. Enfim, tento encarar isso como uma espécie de prenda de anos, embora nem saiba em que dia calha o aniversário dela. Felizmente não parece apreciar uísque irlandês e percebe que abrir garrafas de vinho daria, bem, demasiada bandeira. Olho de novo. Rum é adocicado de mais. Receio que atraia melgas ou me deixe nauseado. Acabo por escolher Grant’s. Eu nem aprecio, é mais para visitas e está para ali desde o Mesolítico a chorar-se porque ninguém o bebe. Desatarraxo a tampa, ponho a mão direita em concha, despejo um pouquinho e aplico o improvisado bálsamo na face.
Mal por mal, prefiro-o com gelo.
Em seguida tomo um duche. Corre bem, tendo em conta que não falta nem champô, nem sabonete, nem água, nem gás. Problema, mesmo, é a roupa interior. A única peça vagamente parecida com uns boxers que fui capaz de encontrar tem uma etiqueta a dizer “La Folie” e metade do tamanho que habitualmente uso. Estarei caminhando de forma estranha até ao momento em que a D. finalmente chegue a casa e me abra a porta.
[Note to self: fazer duplicados das chaves.]
Se esta lhe parece uma ocasião estranha para falar dos Monty Python, pense de novo. Eu não sou nada homem para efemérides, mas o facto é que eles apareceram, vindos de um planeta longínquo (Cambridge), faz este ano quatro décadas. Foi num sketch deles que me inspirei para o título Not Toulouse, que aliás ninguém entende e encima os postes de recomendações que neste blogue volta e meia eu escrevo para fingir que percebo alguma coisa de cultura e assim. Amiga do peito alertara-me para a diferença entre to lose e to miss, mas a verdade é que não fui capaz de encontrar uma cidade nas Landes chamada “Toumice”, pelo que ficou mesmo “Toulouse”.
Aqui vai o sketch, ou melhor, o skecz, uma vez que há um polaco traduzindo em tempo real. Não é bom? Assim, quem não fala inglês sempre vai percebendo o que eles dizem.
6.10.09
Viver no Campo
Ao fim de quatro dias no campo, estou um rústico. A barba cresceu-me até ao patamar a partir do qual as mulheres deixam de a achar “selvagem” para passarem a achá-la simplesmente “um nojo”. Tenho nódoas de vinho na t-shirt e trago um casaco que não me serve. O vizinho do lado esquarteja porcos no quintal dele e, mesmo em frente da casa, há um “supermercado rural” que, para além de rações e produtos para a agricultura, vende “pet-food” e “artigos de laser”, o que, convenhamos, é pelo menos tão sofisticado quanto o que se encontra em qualquer sítio de fama mais cosmopolita.
Aliás, a vida no campo não é assim tão distinta daquela a que estou acostumado na cidade. Um exemplo? Ok. O senhor Carlos da serralharia, que passou aqui pela datcha às dez e meia, disse que a fechadura avariada na porta das traseiras seria substituída “ainda esta manhãzinha”. No lugar da fechadura ficou um buraco muito redondo, e se a porta conserva uma aparência de impenetrabilidade é apenas graças a uma chave de fendas manhosamente encravada na ombreira. Eu gostava de dormir meia horita, até porque, como é de lei no campo e inevitável num insone, me levantei noite cerrada ainda. Depois queria dar um passeio revigorante rodeado de, enfim, natureza. De pouco serve estar no campo se não se pode passear entre pinheiros sob chuva torrencial e arriscar ser transformado em torresmo por um relâmpago. Mas passa das quatro da tarde e o serralheiro ainda não voltou. Dá para pintar um quadro mais urbano que este?
E sabe que mais? Eu gosto.
5.10.09
Um porco
Na quintarola ao lado da nossa datcha, alguém matou um porco. O animal permaneceu dependurado sob uma espécie de cobertura de um dia para o outro. Quando voltei a espreitar pela janela, restavam os presuntos. No dia seguinte, nem isso. A quinta estava cheia de gente, adultos conversavam sentados ao sol, crianças brincavam em baloiços instalados num pequeno relvado. Calculo que tenham aproveitado a carne toda.
Não sei se apanharam o tipo que matou o porco, mas é bom saber que alguma coisa boa saiu desse animalicídio.
4.10.09
Picas
O meu filho telefonou-me para se queixar de que a mãe o forçou a levar picas de meia em meia hora durante duas horas (já fiz as contas, dá cerca de cinco picas) e que, durante todo o tempo em que foi forçado a conservar-se em jejum, ela não se coibiu de comer donuts à sua frente. Tentei acalmá-lo garantindo que eu jamais faria isso porque não posso comer donuts, embora um bitoque com pickles não estivesse fora de cogitação.
Lembrou-me de quando fiz a primeira e, espero, última endoscopia da minha vida. Estava agendada para as onze da manhã, e desde as nove da noite do dia anterior que nenhum sólido via o buraquinho onde o meu esófago muda de nome. Lamentavelmente, calhou a médica atrasar-se e o exame passar para as três da tarde. Isso tornou as coisas muito difíceis. Tentei compensar a carência alimentar com cigarros, o que me provocou uma dor de cabeça semelhante à que afligiu Neville Chamberlain quando percebeu que Hitler não era apenas um bom tipo mal aconselhado por um barbeiro incompetente.
Enquanto me enfiavam uma mangueira pela goela abaixo, eu pensava – e se pensava é porque não podia gritar, tinha todo o meu corpo concentrado na vã tentativa de expelir o intruso – em como estava a ser vítima de uma atrocidade médica inútil: com todo aquele atraso, o mais que eles iriam conseguir filmar agora seria um estômago completamente vazio.
Not Toulouse
Pedi à Guerra e Paz que desse ao prelo A Estrutura das Revoluções Científicas só para provar que essa obra seminal de Thomas Silva Kuhn – ou simplesmente Thomas S. Kuhn, como é mais conhecido desde o discurso presidencial de há dias – existe mesmo, que não inventei o livro quando aqui falei sobre ele. A capa é óptima; o papel, bonito; e o corpo de letra, anafado. Leia, leia e saiba tudo sobre mudanças de paradigma e outros conceitos folgazões que ajudam a quebrar o gelo em qualquer renegociação de crédito à habitação.
Not Toulouse era também o todo-barroco concerto único de noites atrás, na Aula Magna, pelos Retrospect Ensemble. Eles dantes chamavam-se King’s Consort, mas mudaram de nome quando se aperceberam de que na Inglaterra não há, pelo menos de momento, um rei – e que, mesmo que houvesse, a consorte seria sempre a rainha.
O concerto era de recolha de fundos para a reabilitação do Jardim Botânico da Universidade de Lisboa e o programa era género Händel’s Greatest Hits, sabe, aquelas suites obrigatórias em qualquer antologia do maior compositor de sotaque alemão que a Inglaterra não viu nascer, com um pouquinho de Telemann (um alemão, decerto para compensar) à mistura.
Foi penoso assistir a um concerto tão conseguido e com fins tão meritórios numa casa meio vazia, e não foi, infelizmente, a metade da assistência que ali não estava que suou as estopinhas. Respirava-se como no reptilário do Jardim Zoológico ou na antiga cervejaria Munique, isto é, com muita dificuldade: aqueles assentos não são verdes, eles estão verdes. Pena que o ar condicionado – para o qual não existem na tesouraria, dizem-me com um misto de tristeza e vontade de fumar (ou, no mínimo, de praticar Reiki – é assim que se escreve?), fundos disponíveis – tenha posto um fim àquelas ventoinhas a pilhas que em tempos aprimoraram os tabliers dos táxis da capital e, calculo, do país inteiro. Sorte haver os leque-programa que distribuem no início e cujo flap-flap adejou por sobre todo o concerto como as asinhas daquela criaturinha cujo nome agora me escapa e que voa dissimulada por entre as naves das igrejas, tomando nota de quem conversa em vez de prestar atenção ao serviço religioso.
[Eu pensando em como para meia casa bastava uma Aula Parva (hahaha entendeu? “Parva” em latim é “pequena”, o oposto de magn… eh… ok, já me calei, já me calei).]
E por falar em jardim botânico (até sinto vergonha de só agora falar sobre o assunto), não perca o programa “Laços de Família” de visitas guiadas ao Jardim Botânico da UL. Sei que, lido assim de repente, soa a programa para entreter criancinhas enquanto a gente se enfrasca no bar mais próximo. Mas não. A ideia é explicar-lhe a si, que é uma pessoa interessada e sensível, que laços unem as plantas de uma família, como evoluem e se adaptam plantas aparentadas para sobreviver em diferentes ambientes naturais, o que as une, o que as diferencia e (a questão, confesso, que mais me intriga) esclarecer se a seiva é ou não mais viscosa do que a água. Infelizmente já perdi as rosáceas e os legumes, passei a noite chorando, mas tentarei ir a pelo menos algumas das sessões que faltam.
2.10.09
1.10.09
Hospitalismo, um episódio
Sessão de raios-X num hospital de Lisboa. Tudo bastante eficiente, mas não posso dizer que não contasse com isso: já me haviam dito que o atendimento nos hospitais civis tinha melhorado muito desde a II Guerra Mundial. Pena que o uísque estivesse esgotado nas máquinas dispensadoras de bebidas, mas ei, se quer perfeição vá apreciar os rodapés da Capela Sistina.
Não tinham passado quinze minutos após a inscrição quando uma enfermeira abriu a porta e leu o meu nome num papelinho. Meu Deus! Estão aqui umas vinte ou trinta pessoas, porquê o meu nome?, pensei, temendo o pior, mas sosseguei quando a D. me explicou que era normal que me chamassem: afinal, se eu me tinha inscrito era porque queria ser chamado.
Apesar de ela me garantir que não me abandonaria em hora para mim tão difícil, despedi-me com alguma emoção, cuidando de não exagerar nas lágrimas. Quatro daguerreótipos à cervical e dois ao lombo não justificavam talvez tanta comoção e podiam fazê-la suspeitar de uma fita à jogador de futebol, para quem a sensação de um pequeno toque na coxa equivale à dor insuportável de uma penhora por incumprimento fiscal. Assim, limitei-me a deixar-me cair duas vezes e a bater com a cabeça na ombreira da porta, manobra aliás mal calculada e após a qual senti necessidade de ler o livrinho verde de Kadhafi.
[Vou na parte em que o coronel explica que o referendo é uma impostura face à democracia e que os que nele participam apenas podem dizer “sim” ou “não”, quando deviam poder explicar por que razão dizem “sim” ou “não”. Imagino um eleitor querendo explicar por que razão vota “sim” ou “não” e ficando confuso por não haver um local para escrever isso no boletim de voto, tendo que rabiscar notas nas margens e tornando muito difícil o processo plebiscitário, razão provável pela qual na Líbia andam a contar votos há uns, quê?, quarenta anos? Caramba, agora fiquei deprimido.]
Arrastei-me gemendo (mas baixinho, um homem tem a sua dignidade, mesmo eu) até à sala das máquinas, onde uma médica muito gentil me solicitou, com desconcertante naturalidade, que baixasse as calças até aos joelhos e me deitasse. Achei a coisa algo descabida, afinal acabáramos de nos conhecer, mas a D. estava na sala ao lado e aparentemente não só aprovava como até incentivava o procedimento; e quando assim é, leitor, não há que questionar, apenas obedecer.
A médica procedeu então ao ajuste de uma maquineta que parecia saída de um livro de Júlio Verne, embora com um ar mais antigo, e eu aproveitei para quebrar o gelo: não é todos os dias que se está deitado numa marquesa com as calças pelos joelhos e a conversar com uma completa desconhecida. Ela revelou-se, há que dizê-lo, uma pessoa muito interessante e de uma simpatia a toda a prova. Não teria mais que 25 ou 55 anos e a sua especialidade era Psicologia, nem precisava de o ter dito, o facto de estar ali a tirar raios-X tornava isso tão óbvio.
Enfim, radiocintilante leitor, quando abandonei o hospital ia na posse daquilo que pretendia – um enorme envelope amarelo que fiz questão de exibir o mais possível aos restantes pacientes, não fossem eles pensar que eram mais doentes do que eu. Há que dominar o território, conservar a guarda bem alta, manter o adversário sob controlo: muitos não imaginam o quanto, no sórdido mundo do hospitalismo profissional, é acesa, feroz até, a competição.
28.9.09
Um patrício
Conta Suetónio que, ao tempo em que governava a Hispania Tarragonensis, o futuro imperador Galba determinou que fosse crucificado, junto com alguns criminosos de extracção vulgar, um homicida por envenenamento (pouco importa quem era a vítima, caso de heranças, decerto enfadonho como o são quase todos os casos de heranças).
O condenado, proeminente cidadão romano, ficou revoltado por o emparelharem com baixa companhia e apelou ao governador, que não deixou de se mostrar sensível à argumentação.
No dia aprazado, e em público reconhecimento do seu elevado estatuto, a cruz do ilustre patrício foi colocada mais alta que as restantes e cuidadosamente pintada de branco.
24.9.09
Das Bibliotecas (IX)
Sei agora que a funcionária da biblioteca não nadava propriamente em bílis negra, germe de toda a melancolia, quando me sugeriu que desfrutasse “num Inverno” A Montanha Mágica, de Thomas Mann, livro que eu há muito me queria poder gabar de ter lido e lhe pedira para reservar: ela quis dizer, sim, que a coisa me ocuparia pelo menos um Inverno inteiro, e mesmo assim saltando cada página par, sabendo nós que as páginas ímpares são as que verdadeiramente interessam em Literatura.
E porque deduzo eu o que acima afirmo a respeito do conselho da bibliotecária? Ora, porque a D. me ofereceu uma edição da colheita da D. Quixote do ano em curso e que eu desconhecia existisse: contei (ok, ok, vi o número no fim) 832 páginas, em letra miudinha e sem bonecos. Para quem, como eu, esperava pouco mais que o raquitismo de Morte em Veneza – raquitismo físico, não literário, bem entendido, poise lá o corta-papel –, o abalo não foi pequeno. Ainda assim, alimento expectativas. De Literatura nada percebo, mas caramba!, sei reconhecer uma grande obra quando a vejo.
Já liguei para a biblioteca a cancelar a reserva e a prevenir quem de direito de que, não obstante o calor que por estes dias se faz sentir, tenciono antecipar em um ou dois meses a partida de Perséfone para o Hás-de (aprendi a chamar-lhe assim com a criança birrenta que corrige a mãe num conto brilhante da não menos brilhante Luísa Costa Gomes: “não é hades, é hás-de”, dizia o miúdo fincando o pé. É coisa de que a gente nunca mais se esquece).
E agora, escalar A Montanha Mágica, hahaha, entendeu? Esc… eh… bom. É só, ite, missa est e tal, é sempre de bom tom acabar com uma latinada valente.
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Foto: comparação entre a montanha de Mann e a eneidinha de Vergílio (ou Virgílio, dependendo do clube).
Mínimas
Reticências são usadas quando se quer sugerir ao leitor que mais haveria a dizer, que o assunto não se esgota ali; e que, em pagando, é possível ler o que falta.
23.9.09
O Padrinho
Eu perguntara, mal disfarçando o interesse próprio, se o padrinho dela fumava. Ou a madrinha, para o efeito tanto fazia. Que sim, que lhe parecia que o padrinho fumava, a madrinha é que não. Fui sugerindo que talvez não fosse de mau tom pôr um cinzeirito em cima da mesa, afinal excepções sempre existiram, olha os OVNI e os políticos com graça e isso. Se calhar até talvez se justificasse um Ó padrinho se quiser fumar esteja à vontade, o Zé deixou o hábito há uns anos mas adora que lhe atirem o fumo para cima. E um padrinho sempre é um padrinho, não se ia mandar o senhor dar passas para a varanda, seria uma deselegância e uma falta de respeito.
Coube-me o privilégio de distribuir os lugares. Sentei o padrinho à cabeceira e deixei-lhe um bonito cinzeirinho de porcelana do lado direito, mesmo a pedir para ser usado; eu ficaria logo ali, a seguir à esquina da mesa, aspirando quanto pudesse dos doces e quase esquecidos eflúvios.
O padrinho não fumou antes do banquete. Durante, também não. E quando chegou a hora do cafezinho e do Bushmills, que ambos bebemos em copo alto com três cubinhos de gelo e um pouco de água Castelo, eu fui-me abaixo. Quebrei. Perguntei-lhe se não lhe apetecia puxar de um cigarrito, ali ninguém ia levar a mal, estavam as janelas abertas e o cinzeiro na mesa. Mas ele que não. E foi a madrinha quem explicou que o marido nem sequer levara o maço de tabaco para o jantar: isso teria sido uma deselegância e uma falta de respeito.
O escuro outra vez
Sábado (estava prometido há muito), aprendo o Metro pelas mãos da D. e do meu filho. De súbito, a surpreendente luz do dia. Não imaginava que no Metro de Lisboa já havia luz do dia. Pouco tempo, o suficiente para eu me aperceber de que a paisagem não é lá grande coisa: bidões, baldios, umas hortaliças. Talvez por isso, logo depois, o escuro outra vez.
18.9.09
Eu queria
Eu queria ter escrito aqui o quanto me diverti no meu aniversário, o primeiro que verdadeiramente celebrei em muitos anos. Mas nuvens escuras velaram a manhã do dia seguinte, como antes haviam ensombrado o soalheiro mês de Agosto. Quando pensávamos que o bom tempo podia chegar, a chuva caiu – não, o gelo caiu – e foi frio de mais para suportar.
Passou algum tempo, nunca o suficiente, mas escrevo agora aqui o quanto me diverti no meu aniversário e quanto o devo a quem tanto perdeu neste Verão gelado.
Telefonar para lá (II)
Mal refeito da experiência que relato no poste anterior, recebi nova chamada de marketing, desta feita oriunda da PT. Pretendia a minha interlocutora saber, antes de mais, se eu era eu; e se, em sendo, “o senhor José” estava “benzinho”. Informei-a de que isso dependeria em grande medida do seu telefonema, mas ela não se apequenou: tinha uma proposta que eu não poderia recusar, e sabia-o.
De acordo com o meu plano de preços actual, confirmou ela, eu podia fazer chamadas a qualquer hora para qualquer ponto do país, completamente grátis. Respondi que de facto assim era, se por “grátis” o Houaiss definir 20 euros e uns cêntimos por mês por um telefone que de tão pouco uso que tem é utilizado como cinzeiro pelas cada vez mais raras visitas que fumam, e o cujo eu havia mandado instalar, alguns anos atrás, como reserva para os momentos em que à Net por cabo lhe dava para ter personalidade.
A menina propôs-me então algo de (há que admiti-lo) irrecusável: por menos um euro mensal do que então pagava – 19 em vez de 20 – podia manter o meu plano de preços e ainda ter Net wireless ADSL com direito a 30 gigas de tráfego internacional, sendo que o tráfego nacional era ilimitado, o país inteiro se eu quisesse.
Admito que senti algumas dificuldades em assimilar a informação. Verbalizei-as: “Está a dizer-me que passo a pagar menos e a ter mais?”. Nitidamente encorajada pela minha incredulidade, ela disse que ah-hã. Perguntei onde estava o rabo do gato. Ela tinha já a expressão “fidelização do cliente” na ponta da língua (ah, essa serpente de novo). Bastava que eu aderisse ao débito automático em conta (tão cómodo) e à factura electrónica (olhe como é ecológico) para que admiráveis mundos novos abrissem os seus aurígeros portões para mim.
Para ser franco, não precisava de ADSL na casa antiga porque a) não vivo nela; b) mantenho por lá uma rede wireless Netcabo; c) possuo uma pen Kanguru, para além de acesso fácil a uma outra de griffe TMN; e d) sofro de gota. Mas a proposta era tentadora de mais e, parafraseando Wilde, pode-se resistir a tudo menos à própria tentação. Ocorreu-me que talvez conseguisse cancelar a Netcabo. Tenho pavor de tentar isso, sei lá do que eles são capazes, ouço tantas histórias de horror. Mas a verdade é que mal uso a coisa e sempre paga o condomínio.
Pesando tudo o que acima escrevi, concordei, leitor, em fechar negócio.
Perguntei o que teria que fazer. A resposta não podia ser mais simples: absolutamente nada. A empresa expediria “o produto” para o endereço que eu indicasse. Eu quis saber como era com a instalação. Ela respondeu que era eu mesmo quem instalava, fácil como limpar o rabinho de um bebé (isso não é assim tão fácil, má analogia, mas ok), depois era só “telefonar para lá” e “activar o produto”.
Neste ponto eu estava já inteirinho nas hábeis mãos da operadora. Disse algo equivalente a “yes, I will, yes”, forneci a morada do escritório – embora suspeitando de que ainda assim teria que ir buscar “o produto” à estação de Correios do meu antigo bairro – e despedimo-nos com mútuos votos de felicidades.
Alguns dias passados, chegou-me pelo altifalante do telemóvel a voz madrugadora de um “Instalador Sapo”. Ele queria saber se me “dava jeito” que ele passasse “por aí” ao fim da manhã. Esperei alguns segundos até que os neurónios assentassem e eu fosse capaz de perceber de que raio estava ele a falar. Lá explicou que era do ADSL Sapo, era PT, tudo a mesma coisa, gente boa do mesmo bairro, e que tinha ordens para instalar ADSL na minha casa. Expliquei-lhe que, como Bartleby, I would prefer not to, que não estava nem na morada em causa, nem contando com instalação nenhuma. Mas ah, coração de Becel que sou, acedi a encontrar-me com ele na minha antiga casa por volta do meio-dia.
Eu levara sandes e vinho para a tarde toda, mas o Instalador, extraordinariamente, compareceu quinze minutos após a hora acordada. Tocou à campainha do meu vizinho de baixo e, escorraçado, subiu, rezingando, até ao meu patamar. Só percebi que ele estava a falar com alguém ao telefone quando vi que tinha um aparelho encaixado entre o ombro e o ouvido esquerdos. Tirando esse detalhe, que causava algum, enfim, ruído na comunicação entre nós, foi tudo razoavelmente indolor. Espalhou a parafernália pelo hall de entrada, insistiu em espreitar todas as tomadas de todas as divisões menos as do sótão, suspeito que por não ter reparado que existia um sótão, e perguntou-me, sempre com o telemóvel no ombro (daqui a uns anos verei esse van Gogh na fisioterapia), onde queria eu “o bicharoco”.
O bicharoco, há que dizê-lo, é feio: uma caixa creme, do tamanho de um livro desses que, como um antepassado de João Ubaldo Ribeiro disse que tinha que ser qualquer livro digno desse nome, se aguentam em pé. A rematar o conjunto, uma antena cinzenta e um cabo conspicuamente amarelo. Tudo desenhado com o objectivo de combinar com coisa nenhuma, ou talvez de facilitar a sua detecção aquando da visita de um técnico usando óculos escuros. Mas eu não quis atrasar a função levantando questões de ordem estética. Coloquei uma mesinha no hall, depositei no tampo o telefone-cinzeiro e disse ao Instalador que pousasse o bicharoco (a que ele, não sem carinho, chamava Rute) ali mesmo.
Em três tempos o Instalador abriu um portátil, ligou uns cabos e digitou uns comandos, sempre ditando instruções a alguém do outro lado do telemóvel que (lamento se ouvi a conversa, não tive como evitar) era um outro Instalador que estava com problemas noutra casa e precisava de socorro urgente, talvez porque o cliente fosse de índole violenta.
O meu Instalador era, claramente, alguém de superiores qualidades humanas, técnicas e profissionais a quem outros Instaladores recorriam quando precisavam de auxílio, e isso fez-me sentir muito importante.
A dada altura fui solenemente informado de que “tinha Internet”. Esse foi um momento bonito. Eu estava radiante, mas vacilei três vezes quando o Instalador me pediu o número de identificação fiscal, o NIB e o rol dos Afonsinhos por ordem cronológica. Perguntei-lhe o que instalara ele exactamente e quais os custos envolvidos. Recordei-lhe o que a menina do marketing me havia dito ao telefone: 19 e picos por mês; zero de custos de instalação ou de equipamento; 30 gigas de tráfego internacional, tráfego internacional ilimitado; acesso ao Nirvana. Ok, acesso ao Nirvana não, mas ele podia ter acreditado e eu estaria hoje nas nuvens.
O Instalador pôs cara de filme de David Lynch e passou a desenvolver. De acordo com “as instruções” que tinha, o meu plano de chamadas, que incluía telefonemas para todo o país e a qualquer hora, mantinha-se sem qualquer alteração de preço, ou seja, nos 20 e picos; a este valor acresciam 7 euros e tal pelo ADSL, sendo porém que não existiam quaisquer limites de tráfego, nacional ou internacional. Não que me isso parecesse mal, antes pelo contrário, pago de bom grado 7 ou 8 euros mensais pela remoção desses limites ao volume de tráfego, mas decididamente alguém não estava a comunicar com alguém dentro daquela empresa de comunicações.
Interessei-me então pelos parâmetros de configuração do equipamento. Fornecer-me-iam decerto dados de login para a Rute e uma chave de segurança por defeito para o sistema wireless. Podia mudá-la? Que sim, mas que “quem lhe entra numa, entra na outra”. A garantia deixou-me de tal forma tranquilo que desliguei de imediato a Rute da tomada.
Tenho o terrível defeito de suspeitar de que algo está mal quando nada parece bater certo. Perguntei ao até então simpático Instalador, que continuava a debitar instruções para o telemóvel que milagrosamente sustinha ainda entre a orelha e o ombro, se podia proceder noutra altura à activação: queria ligar para a PT e saber exactamente o que se se estava a passar, ele decerto compreendia as minhas reticências, e além do mais a minha urgência era nenhuma.
Um espesso véu de melancolia toldou os olhos do Instalador, que no entanto anuiu com um “o senhor é que sabe”. Fechou devagar a tampa do portátil, note a simbologia do acto, indicou-me o número para onde devia ligar para “activar o serviço” (vinha no “Guia de Instalação Rápida”), arrumou a parafernália e despediu-se com cortesia, não sem antes me prevenir de que talvez fosse bom eu evitar convívio com o vizinho de baixo nos próximos dias porque tentara entrar em casa dele por engano para lhe instalar um sistema ADSL.
Assim que o Instalador saiu, liguei para o número do Sapo. Após seguir as instruções automáticas e tudo explicar ao operador que por fim me atendera, ele informou-me de que ia “passar ao departamento” onde tratavam aquelas questões. A chamada, é claro, caiu, e a minha advogada, que está sempre a meu lado nestas horas difíceis, aconselhou-me a ligar de novo e pressionar a tecla “9” sem ligar à gravação. Funcionou: fui atendido por um outro operador que me explicou que de facto o Universo se regia pela metafísica do Instalador; a menina do marketing é que decidira aventurar-se pelos ínvios caminhos da agnosia.
Mais me informou que “o produto” só poderia ser activado passadas cerca de 24 horas, tempo de que “o sistema” necessitava para “assimilar” a instalação. Retorqui que não havia problema, até porque queria pensar no assunto e activar o serviço apenas uns dias mais tarde. Poderia eu fazê-lo? É claro que sim, eu é que sabia, o cliente tem sempre razão, etc. E preveniu-me ainda, quando por mim instado a esclarecer a situação, de que “eram capazes” de me cobrar uma certa quantia – salvo erro, 25 euros – pela instalação, vindo esta “detalhada” na factura da PT; e que esse valor seria “estornado” (o que eu gosto desta palavra) numa factura do Sapo. Tudo lógico, tudo legal.
Algumas horas mais tarde, recebi um sms com o seguinte conteúdo:
“Na sequência do seu pedido, foi activado o processo ADSL com o User xxxxxxxxx e iniciada a respectiva facturação. SAPO ADSL. Vive a assapar.”
Viu? Não se esqueceram de capitalizar “User”.
17.9.09
Telefonar para lá
Tempos atrás recebi uma simpática chamada telefónica, leitor, de alguém que se identificou como sendo “da TMN”. Aparentemente, eu havia “acumulado pontos suficientes” para adquirir “produtos”. Fiquei contente, é claro, e perguntei se podia trocar os tais mais que muitos pontos que possuía por uma dispensa perpétua de chamadas de marketing. Após ligeira pausa, porém, a menina – a voz era de menina, longe de mim querer parecer sexista – informou-me de que “esse produto não consta do catálogo”.
Após uma busca por entre a Publicidade dos Últimos Dias, que é uma espécie de Igreja, lá encontrei um livrinho com o título “Catálogo TMN”; abri-o ao acaso e atirei o indicador para cima da página: caiu sobre a foto de um Pocket PC. Ralado como andava com as dificuldades de eleição de José Manuel Barroso para a presidência do Comissariado, quis, admito-o, despachar o assunto sem mais delongas.
A menina, se é que de facto o era, preveniu-me de que os pontos acumulados não atingiam “o valor do produto” em que o meu indicador assentara – estive quase para levantar a questão da diferença entre “valor” e “preço”, mas não quis complicar –, pelo que teria que pagar um “valor adicional”, que fixou, julgo que de forma aleatória (pareceu-me ouvir barulho de dados sendo lançados), em 65 euros.
Questionei-a sobre se podia continuar a acumular, afinal vivemos num sistema capitalista, mas ela que não, que estava a findar-se o “período de fidelização” após o qual todos os demónios dos infernos se soltarão e apenas em andares muito altos haverá rede. Então eu, que não sei o que fazer ao dinheiro, assenti; mas não sem antes a precatar de que “o produto” deveria ser enviado para uma morada diferente da que constava dos registos da TMN, uma vez que, mantendo eu embora a casa na minha posse, habitava agora assoalhadas mais austrais.
Então ela, leitor, negou-se. Disse que já havia carregado na tecla que lançava os mísseis, perdão, confirmava a morada e que, “uma vez entrada a informação no sistema”, não lhe era possível “voltar atrás”. Insisti. Ela intransigiu. E eu, que lá no fundo sou um sentimental, dobrei um pouquinho e logo a seguir quebrei, sabe como a minha coluna é de lata. Disse-lhe que ok, passaria na morada antiga – ou melhor, na estação dos Correios para onde inevitavelmente “o produto” seria devolvido – e levantá-lo-ia.
[Eu orgulhoso por saber escrever palavras com dois hífenes]
[Eu orgulhoso por saber escrever o plural de “hífen”]
A menina ficou radiante, embora de uma forma, sabe, indiferente, e garantiu que “o produto” estaria na minha posse o mais tardar daí a uma semana, semana e meia. Eu podia agora voltar às ansiedades de que a reeleição do nosso José Manuel me vinha fazendo padecer.
Cinco ou seis dias depois, dirigi-me aos Correios do meu antigo bairro na posse de um papel branco e vermelho que acabara de extrair da caixa de correio. Apresentei-o ao funcionário e este, vestindo uma fácies da mais profunda comiseração, comunicou-me que “o produto” havia sido devolvido à TMN na manhã daquele mesmo dia. Expressei a minha estranheza. Ele aclarou que as encomendas, agora, domiciliam apenas três dias úteis na estação dos correios. Três dias! Ainda me lembro quando eram uma dúzia, como o espaço-tempo é curto, tudo porque o cliente é preguiçoso e é preciso puni-lo, dar-lhe uma lição, digo eu. Ou isso, ou precisam do espaço nos armazéns para todos os best-sellers e patinhos de borracha que agora vendem nas estações de Correio. Isso de tratarem das cartinhas das pessoas é uma caridade que a Boa Administração tolera; decerto não vai durar sempre, aproveite, aproveite.
Eu é que não permiti que os frios braços da consternação cingissem a minha fragilizada psique. Liguei para a TMN e expliquei (duas vezes a duas pessoas diferentes, faz parte do ritual) o que se havia passado. Mais: insisti em que “o produto” fosse enviado para “o meu escritório”. Que não é mesmo meu, ok, mas isso agora não interessa, o facto é que está lá sempre gente eficiente e mais uma encomenda menos uma encomenda eles nem notam. Dei a morada, centro de Lisboa, rua finíssima, e o rapaz – pela voz, era um rapaz – garantiu-me que desta é que era, agora é que a coisa ia mesmo funcionar e que sim, o Homem pisara mesmo solo lunar, uma dúvida que me vinha atormentando desde que uma professora de um liceu de Lisboa a levantara numa aula a que o meu filho teve o privilégio de assistir.
Algum tempo depois, quase esquecido do assunto, regressei à casa antiga para tratar de outras coisas de índole mais pragmática, género lavar a louça que dois meses antes sujara e assim. Para minha surpresa, entre quilos de publicidade espreitava um papelinho branco e vermelho acusando-me de não ter estado em casa no dia tal do tal às tantas horas. Contei os dias que haviam passado desde a data rabiscada no papel: eram bem mais que três, uma deslocação aos Correios seria inútil.
Telefonei mais uma vez para a TMN. Fiz voz grossa (dizem que a tenho de barítono, mas apenas a falar, quando canto é mais pato), queixei-me, chorei, creio que inventei até filhos pequeninos. A menina do lado de lá – a voz era de menina – tomou boa nota da morada do escritório e garantiu-me com a convicção de um autarca em campanha que desta vez é que a gente ia contornar essa rotunda.
Três dias depois, fui à casa antiga buscar uns livros (na verdade apenas uma extensão eléctrica e umas cordas de guitarra, mas achei que seria bom para a minha imagem se falasse em livros). Ensanduichado entre um catálogo IKEA e a revista A3 a cores e com papel de gramagem inacreditável da Câmara de Oeiras, lá estava ele – o odioso papelinho branco e vermelho. Corri para a estação dos Correios, entreguei 65 euros e vim-me embora com “o produto”.
Moral da coisa? Não se pode vencer o sistema, mas pode-se sempre telefonar para lá.
Esmiüçar Portugal
Óspois da entrevista a Ferreira Leite, os Gato Fedorento estão quase quase a convensser-me que “esmiuçar” levam mesmo aquele assento no ú.
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Adeda:
A questão paréceme ter ficádo sufiçientemente esclareçida na cáicha de comentarios; mas aqui fíca excerpto do capitolo xxix da Gramática da Linguagem Portuguesa de Fernão de Oliveira, publicada ainda à pôco (1536) e que júlgo estar inda em vigôr. Pur favôr coloque os tiles por cima das lêtras que se lhez ségem, eu não fui capás de o faser:
“(…) os verbos tamb~e em algh~uas partes tem o acento na penúltima posto que a vltima tenha a cõdições que dissemos que auia de ter pêra ter o acento em si:e as partes dos verbos ~q a isso não tem respeito são como estas . amas . andas . ames andes: e tmab~e apanhas. apanhes. acolhas. recolhas. E porem não tem o acento na penultima:as partes ~q tendo a ante penultima longa tem as outras duas seguintes pe~qnas:como amauamos. faziamos ainda ~q isto falta nas seg~udas pessoas do plural: assi no presente futuro e preterito do indicatiuo como tãb~e no presente do soj~utiuo assi como dizemos estudamos. riremos. e digamos onde o açento esta na penultima não embargando ~q essa penultima seja pe~qna e antepenultima grande: a ~ql se forma cõ u. ou .j. vogaes grãdes.
As dições ~q não t~e nenh~ua destas tres sylbas de ~q falamos grãde vltima n~e penultima n~e antepenultima pela mayor parte t~e o aç~eto na penultima como cãdea zãboa. ~etoa. atroa.
As dições ~q t~e ou todas tres estas syllabas grandes: ou a vltima com algh~ua ~ql~qr das outras escolhe antre as outras o nosso costume para lugar do acç~eto e som prinçipal da dição ou parte a vltima como lugar/rosalgar. e com tudo da penultima e antepenultima antes escolhe a penultima tam grãde amigo e de chegar o açento ao cabo da dição: e po~eno antes na penultima. como linguajem. giesta trouxerão.
Na penultima syllaba tem o acç~eto as dições ~q t~e essa antepenultima grãde t~edoas outras seguintes vltima e penultima pequenas: como amauamos. andauamos. ardego. etego. aspero. colera. e isto não sempre: mas pella mayor parte/porque as segundas pessoas dos verbos no plural dos tempos ~q disse seguem outra cousa.
(…)”
15.9.09
Das Bibliotecas (VI)
A minha ideia é escrever uma série de postes sobre bibliotecas sem mencionar Borges uma única v…
Bolas, já mencionei.
Das Bibliotecas (V)
E as pechinchas? Os saldos, as promoções, os monos que a editora quer despachar? Como dizer “não” a um Eça a três euros, ainda que já se possua vinte e cinco exemplares de A Relíquia e se conheça de cor os nomes do meio da titi? Pensariam que somos uns tesos e lapidar-nos-iam, fazem-no por coisas bem menos graves. Não passa pela cabeça de um húngaro filho de pais bascos e que só fale finlandês enjeitar almanaques do Tio Patinhas a um euro o par só porque as legendas são em inguche. Louco!, é isso – teria que estar louco para não aproveitar espórtulas como essas (gostou do pernosticismo? Foi sugestão da minha advogada; já “pernosticismo”, essa foi mesmo ideia minha).
[Eu achando que temos de encontrar bem depressa um nome alternativo para o raio dessa moeda, “euro” é tão enfatuado.]
E não é só nos livros. Olhe a música. Ontem deparei-me com um escaparate repleto de colectâneas (quase todas de música do período barroco) a pouco mais de seis euros cada quatro cedês. Trouxe Vivaldi, Haydn, Bach e uma antologia que vai de Corelli a Scarlatti – ignoro qual deles, ainda nem vi –, passando por Durante e (claro) Bach. Há-de com certeza existir um limite legal para o número de versões dos Concertos de Brandeburgo que se pode ter em casa, mas e a gente aguentar-se? Não dá.
Falámos sobre o assunto em família e tomámos uma decisão: criaremos uma pequena “colecção de cozinha” para ouvir em exclusivo enquanto cozinhamos e jantamos. O leitor assim mais acalcanhado dirá “Ahá! Jantam na cozinha, os pindéricos”. Mas não. Cozinhamos na sala. Uma pequena fogueira no meio da divisão, como havia nos centros palacianos micénicos. Ruralismo, coisa muito chique, fique sabendo.
“Um pouco mais de Bach, querida?”
“Um andamento apenas, obrigada.”
Das Bibliotecas (IV)
Quereria eu ler a história da vida de alguém à minha escolha, do instante do nascimento à hora da morte, mesmo que a pessoa em questão estivesse ainda tão viva quanto eu mesmo? Sim, se oferecessem café e as letras não fossem muito pequeninas. Mas será que eu aguentaria ler a narrativa da minha própria vida, incluindo todas as partes chatas que já passaram e aquelas que farei os possíveis por ainda viver? Bom, ok, mas em vez desse café vou precisar de uma quantidade generosa de garrafas de uísque irlandês. Bushmills de preferência, Jameson também pode ser, nessas coisas eu sou todo a favor do diálogo inter-religioso, ecumenismo, cumbaiá na praia e tal.
Zoran Živković [eu orgulhoso por ter conseguido introduzir esses caracteres marcianos mas fingindo que foi coisa de nada], um escritor sérvio que conheci através da D., coloca uma interessante questão (ou “problema”, se o leitor for D. Luís traduzindo Hamlet) no conto Biblioteca Nocturna. De acordo com um solitário funcionário da instituição – duvido que bibliotecários consigam arranjar namorada, nenhuma suportaria tanto sussurro, chiu e telefonema por causa de um simples atraso – pode ler-se um Livro de Vida, isto é, a biografia completa de qualquer um dos domiciliados da ecúmena, do passado como do presente, da luz primeira ao apagão final.
E pergunta o leitor menos familiarizado com a obra em apreço: quis o protagonista ler o seu próprio livro de vida, ou preferiu antes vasculhar os pormenores escabrosos da vida de outrem?
Magnífica pergunta, ah, magnífica, magnífica pergunta (faltam-me os adjectivos). Lamentavelmente, não faço a mínima ideia porque não me lembro de como aquilo acaba. Talvez o homem nem tenha chegado a ler coisa nenhuma, o cartão dele pode ter caducado ou o sistema estar em baixo ou algo do género, coisas dessas estão sempre a acontecer. Mas vou reler, vou reler que – disso lembro-me – vale a pena.
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Nota: Para os outros doid… eh… interessados em literatura do fantástico, o conto está na antologia Biblioteca, tradução do sérvio de Arijana Medvedec, Cavalo de Ferro, 2005.
4.9.09
Bandeira de Papel

Cravo e Ferradura, 4.9.2009
(Inspirado na crónica Dr. Jekyll e Mr. Hyde, do preclaro Manuel António Pina.)















